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Van den Berg: Psicopatologia Fenomenológica e a Crítica à Psicanálise


Olá, pessoal! Sejam bem-vindos a mais uma postagem, e hoje vamos desvendar as profundezas de um livro que, para muitos, é um marco na psicopatologia: "O Paciente Psiquiátrico: Esboço de Psicopatologia Fenomenológica", do renomado psiquiatra holandês Dr. J. H. Van Den Berg. Este não é um livro qualquer; é um convite a uma jornada, uma verdadeira revolução na forma como encaramos a doença mental.


Introdução à Obra e ao Paciente Ideal

Para começar, é fundamental entender o que temos em mãos. Publicado pela Editora Mestre Jou, com sua primeira edição em português em 1966 e a segunda em 1973, este trabalho é um "esboço de psicopatologia fenomenológica" que se destaca por sua originalidade. Embora se trate de um livro antigo, suas discussões permanecem atuais. Ao invés de nos apresentar um catálogo exaustivo de sintomas e síndromes psiquiátricas – algo que o autor reconhece já ter sido "muito bem feito" em outras obras, como as de Dr. R. Vedder e Jaspers – Van Den Berg nos propõe uma abordagem radicalmente diferente.


Ele sintetiza as mais variadas condições mórbidas de um grande número de pacientes em um único indivíduo "ideal", que, segundo ele, "engloba toda a Psicopatologia". Imagina isso: um único paciente que é um espelho de toda a complexidade da mente perturbada! O paciente em questão é descrito como um neurótico seriamente perturbado, cujas percepções já não se diferenciam de suas alucinações, e seu pensamento ilusório se confunde com o de pacientes que sofrem de delírio. Mas o autor nos alerta: embora existam linhas de demarcação entre essas condições, elas não são suficientemente grandes para anular qualquer relação. Todos os pacientes participam da mesma existência humana.


O prefácio, escrito pelo Prof. Dr. Leonardo Van Acker, Doutor em Filosofia pela Universidade de Lovaina e Catedrático da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, já nos prepara para a profundidade filosófica da obra. Ele destaca que o livro interessa especialmente a psiquiatras, psicólogos e orientadores, mas sua leitura é útil para qualquer pessoa que deseje entender a origem e desenvolvimento das neuroses em geral. E mais, Van Acker sublinha que o método fenomenológico aqui praticado segue a concepção de Husserl e Heidegger, aplicada na psiquiatria por iniciativa de Ludwig Binswanger. Isso significa que o foco é descrever o objeto "tal como se revela ser em si, dentro da perspectiva do sujeito consciente".


O autor, J. H. Van Den Berg, nos convida a uma jornada de "conhecimento íntimo" em vez de uma "teoria sutil". Ele quer que o leitor use a sua própria mente, pois este estudo "também diz respeito à sua própria vida". E aqui está uma das primeiras sacadas do livro: o paciente que ele descreve "existe e não existe". Não existe como um indivíduo identificável, mas existe enquanto suas queixas pertencem a uma classe de paciente. Van Den Berg afirma: "Conheço esse paciente; encontro-o em cada um dos meus enfermos". Isso já nos mostra que não estamos diante de um estudo de caso isolado, mas de uma exploração da condição humana em sua vulnerabilidade.


Este livro, em essência, é um "esboço de psicopatologia fenomenológica", que nos leva a questionar a abordagem tradicional e a buscar uma compreensão mais profunda e vivida da experiência do paciente. A seguir vamos desvendar os problemas e as respostas que Van Den Berg nos apresenta!


A Crítica à Psicopatologia Tradicional e os Conceitos Controvertidos

No Capítulo I, o autor nos apresenta um paciente anônimo, um jovem de 25 anos, estudante, que busca ajuda psiquiátrica com uma série de queixas que nos fazem mergulhar em seu mundo perturbado. Ele não consegue andar na rua à luz do dia, sente que as casas vão desabar, as pessoas parecem irreais e distantes. Sofre de palpitações intensas, fraqueza nas pernas, e uma sensação de que seu coração vai parar. Não tem contato real com ninguém, irrita-se com os pais e vê as mulheres como "criaturas inferiores". E, de forma marcante, refere-se ao seu passado com aversão, culpando os pais por sua infelicidade, enquanto o futuro lhe parece vago e ameaçador.


Agora, aqui é onde a crítica de Van Den Berg à psicopatologia tradicional de sua época (psicanalítica) começa a brilhar. Ele organiza as queixas do paciente em quatro grupos: as mudanças no mundo observável, as mudanças no corpo, as alterações nas relações com outras pessoas, e as que concernem ao passado e futuro. Para cada um desses grupos, a psiquiatria tradicional tem uma palavra "apropriada": projeção, conversão, transferência e mitificação ou falsificação de memória. E ele empreende uma crítica a esses conceitos a partir da lente fenomenológica.


Vamos analisar cada um desses conceitos à luz da crítica fenomenológica:


1. Projeção (O Mundo):

  • Visão Tradicional: Quando o paciente descreve ruas assustadoramente largas, casas cinzentas e em ruínas que parecem desabar, a visão psicanalítica argumenta que ele "projeta" seu defeituoso estado de espírito para os objetos. Acreditam que o mundo exterior não mudou; foi o paciente quem mudou.

  • Crítica Fenomenológica: Van Den Berg questiona: como uma disposição anormal do ânimo, algo dentro do paciente, pode "sair" dele e se incorporar a objetos externos, fazendo com que ele os perceba como realidade? Ele argumenta que o mundo a que o paciente se refere é "tão real quanto, para nós, o mundo em que vivemos". E, muitas vezes, é mais real para ele, pois não consegue se livrar desse "lúgubre panorama". O paciente não está iludido no sentido de que não vê o que diz; ele vê as coisas exatamente dessa maneira. A projeção, tal como definida, se torna um "enigma".


2. Conversão (O Corpo):

  • Visão Tradicional: Os sintomas físicos do paciente (palpitações, dores, fraqueza nas pernas) são considerados uma "conversão" de sua enfermidade mental em sintomas físicos. Os cardiologistas e neurologistas confirmam que seu corpo está fisicamente são.

  • Crítica Fenomenológica: A ideia de conversão pressupõe uma separação dualista entre corpo e alma, um "hiato metafísico" que ninguém conseguiu explicar. Como algo incorpóreo pode influenciar materialmente um corpo físico? Para o autor, o paciente está realmente doente. Suas dores e males físicos são reais para ele. Seria mais plausível, inclusive, que o mal-estar físico fosse real, dele derivando o mental, e não o contrário, como a conversão sugere.


3. Transferência (Outras Pessoas):

  • Visão Tradicional: O paciente tem dificuldades com outras pessoas, vendo-as como hostis e distantes. A psiquiatria tradicional explica isso como "transferência", onde as emoções destinadas, por exemplo, aos pais (ódios, insatisfações) são transmitidas a outras pessoas.

  • Crítica Fenomenológica: Van Den Berg questiona a ideia de que um afeto, como o ódio, possa ser "desligado" de seu objeto original e "transferido". Ele argumenta que nunca se sente "ódio sem objetivo"; o ódio está sempre profundamente ligado à pessoa ou coisa que o provoca. Afetos não são "coisas" que podem ser transportadas de um lugar para outro. A "transferência", como conceito da ciência física, não se aplica à psicologia sem uma redefinição.


4. Mitificação/Falsificação de Memória (Passado e Futuro):

  • Visão Tradicional: O paciente descreve uma infância péssima, com pais ríspidos e mimadores. Relatórios externos contradizem essa visão. A explicação tradicional é que, em consequência de sua neurose, o paciente "mitifica" seu passado, sofrendo de falsificações de memória.

  • Crítica Fenomenológica: O autor refuta a ideia de "engramas" fixos no cérebro que seriam "falsificados". Ele argumenta que o paciente não está se enganando; ele está de "completa boa fé". O passado não é uma entidade objetivamente fixa, mas é continuamente ressignificado pelo presente. O paciente está contando a verdade de sua doença.


Van Den Berg conclui que a introdução do conceito de "inconsciente" para "salvar" essas teorias (projeção, conversão, transferência, mitificação) é uma "solução prematura" para dificuldades teóricas. Ele nos desafia a olhar para a realidade vivida pelo paciente e a questionar os fundamentos filosóficos por trás dessas explicações.


A Perspectiva Fenomenológica: O Homem e o Mundo

Agora que entendemos as críticas, vamos mergulhar na alternativa que Van Den Berg nos propõe: a psicopatologia fenomenológica. Em vez de diagnosticar e rotular, a fenomenologia busca descrever a realidade tal como ela é vivida pelo paciente. É uma "ciência extraordinária e pretensiosa que procura resolver esses problemas pré-reflexivamente".


O autor começa a desvendar isso a partir da relação fundamental entre o homem e o mundo. Ele nos convida a pensar em exemplos do cotidiano: quando estamos esperando um amigo e a garrafa de vinho próxima ao fogo "nos diz" sobre o desapontamento quando ele não vem. O que vemos não é apenas uma garrafa verde com um rótulo; é "alguma coisa como o desapontamento". Para um psicólogo positivista, isso seria "pura poesia", uma projeção de uma condição interna. Mas Van Den Berg argumenta que a introspecção pura, buscando sentimentos "dentro de mim", leva a uma compreensão menos clara, ou a um "muro impenetrável". Nossa subjetividade e o mundo estão intrinsecamente ligados.


Um exemplo marcante é o do casal que visita Veneza novamente dez anos depois. A cidade "revive" para eles, mas eles só compreendem o que Veneza significava quando se sentam em uma gôndola, veem os palácios, ouvem os gondoleiros. A memória, uma condição "extremamente subjetiva", está "estreitamente fundida com as vozes, os odores, com tudo o que está por aí, contido nos objetos". Não existe um "puro sujeito" ou um "puro objeto"; ambos são interdependentes.


O autor reforça essa ideia com o exemplo do carvalho. O mesmo carvalho é percebido de forma diferente por um caçador, um madeireiro ou uma moça romântica. Eles veem "carvalhos diferentes", mas todos veem uma realidade. E o porquê? Porque "nunca vemos 'objetos' puros e simples, desacompanhados de qualquer outra coisa". Vemos o "significado que as coisas têm para nós". Para o africano levado a Londres, os carros e edifícios não significavam nada, então ele não podia vê-los; o que ele viu foi o policial gesticulando com entusiasmo. É crucial entender que "tudo o que vemos, ouvimos, provamos ou cheiramos interessa, em primeiro lugar, direta e espontaneamente, a nós mesmos".


A grande sacada fenomenológica aqui é que a "relação entre o homem e o mundo é tão íntima que seria errado separá-los". Nosso mundo não é apenas um "conglomerado de objetos cientificamente descritos"; é nosso lar, nosso ambiente, "uma realização de subjetividade". Para compreender a existência humana, devemos "prestar ouvidos à linguagem dos objetos".


Esta abordagem rejeita a separação cartesiana entre "res cogitans" (mente) e "res extensae" (matéria). O sujeito puro, o "homem interior sem nenhuma coisa exterior, não existe". Tudo o que nos pertence está ligado a algo externo.


No contexto clínico, isso é revolucionário. O paciente deprimido, por exemplo, descreve um mundo que se tornou "escuro e sinistro", onde "as flores perderam a cor, o sol perdeu o brilho, tudo parece sombrio e morto". Ele não está projetando sua tristeza; seu mundo está doente, seus objetos estão doentes. As casas que para o nosso paciente parecem "velhas e estragadas", a ponto de ruir, são a "expressão literal de sua condição 'subjetiva', ou seja, pessoal". Ele é um indivíduo solitário, e os objetos "estão afastados e hostis". O paciente está contando a verdade de sua doença mental.


Por isso, Van Den Berg propõe uma "patografia positiva": em vez de condenar o paciente com termos negativos (melancólico, descontrolado, demência), o psiquiatra deve "tomar o partido do paciente e pôr-se em seu lugar". Devemos entender como é a existência do paciente, porque ele "vive tão positivamente como nós mesmos". Isso nos leva a uma nova forma de ver e descrever a doença, partindo da experiência vivida.


As Relações Fundamentais – Corpo, Outro e Tempo

Continuando nossa exploração fenomenológica, Van Den Berg aprofunda as inter-relações que moldam a existência humana, estendendo a crítica ao dualismo a outras esferas.


O Homem e o Corpo: O autor questiona a crença na separação completa entre corpo e alma, uma ideia que ele traça até pensadores como Descartes. Ele nos lembra da experiência de La Mettrie, que, ao ficar doente, percebeu que a febre alterava não só seu corpo, mas também sua "alma", diminuindo sua crença na separação. Não temos um corpo como um objeto separado; nós somos nosso corpo. Quando uma mãe acaricia o braço do filho doente, ela não está tocando uma "prisão" que contém o filho, mas sim seu próprio filho. A distinção entre o corpo que "somos" (pré-reflexivo, vivido) e o corpo que "temos" (reflexivo, objeto de estudo, dissecável) é fundamental. O estudante de medicina que acaricia a mão da namorada e pensa em sua anatomia está cometendo um erro; ele está acariciando uma mão que é "macia ou dura", mas que não pode ser encontrada em seu livro de anatomia. Na vida pré-reflexiva, não há fisiologia; ao comer, "tornamo-nos estômago"; no ato sexual, "homem e mulher transformam-se em criaturas de sexo". Para o paciente de Van Den Berg, suas queixas físicas (coração doente, pernas fracas, equilíbrio instável) não são conversões de um distúrbio mental. Ele tem um coração doente e pernas que falham. O cardiologista e o neurologista não encontram defeitos porque estão olhando para órgãos anatômicos, enquanto o paciente se refere ao "coração que pode ser quebrado por um gesto ou um olhar", o centro de seu mundo. Suas pernas não falham anatomicamente, mas ele "perde literalmente a capacidade de ficar de pé" em sua vida. A conclusão é clara: "Mundo e corpo estão interligados; então a costumeira distinção entre mundo e corpo é provavelmente radical demais".


A Comunicação Entre o Homem e Seu Semelhante: Aqui, Van Den Berg nos mostra como os objetos mudam de aparência e significado em função da presença do outro e da qualidade da relação. A jovem judia no romance de Carry van Bruggen vê os móveis se transfigurarem quando sua mãe troca a toalha da mesa aos sábados. As coisas "mudam em certas ocasiões especiais. Quando alguém chega ou parte". O outro não é um indivíduo isolado; ele "torna visíveis os graus de unidade ou de distância dos objetos". O olhar de condenação de outra pessoa pode fazer com que um homem espiando por um buraco de fechadura sinta o quarto se afastar e seu próprio corpo se tornar "propriedade" da testemunha. Além disso, há o contato direto e físico: apertos de mão, abraços, carícias. A carícia, por exemplo, "suspende a natureza acidental do desenho" das veias da mão, transformando-a na "mão que tinha de estar aí". O amor "remove a distância do corpo", justificando-o e convidando o indivíduo a "ser esse corpo". A amizade, por sua vez, permite que "penetreis na Islândia sem constrangimento", pois "a remoção das barreiras entre mim e os objetos é a amizade entre mim e ele". Para o paciente do livro, a estranheza dos objetos, a hostilidade das pessoas e as alterações em seu corpo são expressões do mesmo distúrbio: uma grave perturbação em seu contato com os outros. Ele está "seriamente perturbado em seu contato com as outras pessoas".


Homem e Tempo – História Vivencial: A reflexão sobre o tempo é outro pilar da fenomenologia. Santo Agostinho já se questionava: "Quando alguém me pergunta o que é o tempo, eu sei o que é, mas quando procuro explicar, já não sei o que é". O tempo não é uma entidade abstrata, mas algo que vivemos e experimentamos diariamente. A fenomenologia busca compreender o tempo "pré-reflexivamente", ou seja, como ele se revela na experiência. O passado, para Van Den Berg, não é uma posse de um tempo passado, nem uma lembrança de "engramas" fixos. O passado "é o que era, como parece agora" e "tem que preencher uma tarefa atual, para melhor ou para pior". Se não tem função, ele simplesmente "não está aí". O futuro, por outro lado, não é apenas uma extrapolação do passado. Ele é "o que está por vir, como está vindo ao nosso encontro agora". O Sr. X, ao acordar, já está "dentro do dia", condicionado pelo futuro que se apresenta. O futuro não se origina de uma subjetividade puramente pessoal; ele é invocado por outras pessoas, por eventos externos. A relação é de mão dupla: o passado nos encontra vindo do futuro, e o futuro é alimentado pelo passado. "O presente é então o convite vindo do futuro para ganharmos o domínio dos tempos passados". É por isso que o neurótico se preocupa com seu passado: "O futuro tornou-se inacessível; pois um futuro acessível significa um passado bem ordenado". A solidão, mais uma vez, emerge como o cerne da questão, afetando a maneira como o paciente vivencia seu tempo.


O Inconsciente, Solidão e a Essência da Psicopatologia Fenomenológica

Chegamos a um dos pontos mais intrigantes da obra: a crítica ao conceito de inconsciente. Van Den Berg o considera uma "solução prematura" para as lacunas das teorias tradicionais.


Ele distingue ocultamento de inconsciente. O ocultamento é uma escolha livre do paciente, mesmo que "com tanta força (e com tanta necessidade) que lhe é impossível voltar para trás". O exemplo da jovem que corria na frente dos cavalos serve para ilustrar isso. Jung, que a princípio buscou um trauma infantil "inconsciente", eventualmente percebeu que ela estava, na verdade, ocultando um motivo presente: o desejo de voltar para a casa do homem que amava. Ela "apresentou ao terapeuta (a pedido dele) um pedaço de realidade sem valor, a fim de reter outra realidade". Para Van Den Berg, a paciente estava se escondendo, escolhendo deixar a fábrica e seu corpo para outros, de um modo "escolhido livremente pelo paciente".


Mas, o que é o inconsciente, então? Para o fenomenólogo, ele não é uma "camada profunda da personalidade" dentro do paciente. É, na verdade, o conhecimento que o terapeuta possui sobre a situação do paciente, a "compreensão de outra pessoa". O paciente não sabe o significado de seus sintomas ou por que age de certa forma porque "sua incapacidade em compreender é que constitui sua doença". O "inconsciente do paciente" é o "consciente do terapeuta". Quando o paciente se cura, esse conhecimento vem para ele.


A fenomenologia, portanto, não necessita de hipóteses, incluindo a do inconsciente. As hipóteses surgem "quando a descrição da realidade termina prematuramente". A fenomenologia é a "descrição da realidade", partindo da vida como ela é vivida.


A Essência da Doença: A Solidão Para Van Den Berg, a grande verdade revelada por sua análise é que "a Psicopatologia pode ser chamada a ciência da solidão e do isolamento". Seja qual for o diagnóstico, a solidão é o "fator essencial" da doença psiquiátrica. O paciente psiquiátrico "está sozinho. Tem poucas amizades, ou talvez nenhuma. Está isolado, sente-se solitário". É dessa solidão que "vem o seu mundo diferente": as casas que se inclinam, as flores sem graça, o corpo diferente com coração doente e pernas fracas, o passado diferente e as dificuldades com as outras pessoas.


As alucinações e delírios, sintomas tão importantes na psiquiatria, são redefinidas: não são "percepções sem objeto". Pelo contrário, o paciente "tem um objeto" e o demonstra. A alucinação e o delírio são objetos e relações que pertencem "exclusivamente" ao paciente em seu isolamento, e são "certamente muito reais, até mesmo mais reais" para ele do que os objetos comuns são para uma pessoa não solitária. O distúrbio mental é a própria condição de distância e isolamento, manifestada na realidade dos objetos, nas relações humanas, no corpo e no tempo – "Tudo está interligado".


Conclusão: Um Convite à Empatia e à Descrição "O Paciente Psiquiátrico" não é apenas um livro de psicopatologia; é uma obra filosófica que nos força a repensar os fundamentos da nossa compreensão da mente humana. As neuroses e a esquizofrenia são os "dois polos da Psicopatologia", e o "conhecimento íntimo desses dois estados domina todo o terreno psicopatológico".


Van Den Berg nos convida a abandonar os julgamentos padronizados e as teorias fáceis, como projeção, conversão, transferência e mitificação. Ele nos exorta a "prestar ouvidos àquilo que os incidentes e os fenômenos estão prontos para lhe contar". A psicologia e a psicopatologia devem ser "ciências comunicativas, meditativas e descritivas". O psicólogo deve estar habilitado a "falar, a simpatizar, a ver, a ponderar e a escrever".


Em suma, este livro é um poderoso lembrete de que, para realmente entender o paciente psiquiátrico, precisamos entrar em seu mundo, ver com seus olhos, sentir com seu corpo, e reconhecer a realidade de sua experiência, por mais diferente que ela nos pareça. É uma abordagem que valoriza a singularidade da existência e a complexidade das relações humanas, nos convidando a uma psiquiatria mais humana e empática.


Espero que esta resenha tenha iluminado o caminho para a compreensão desta obra tão significativa! Essa discussão partiu do nosso Grupo de Estudos em Psicopatologia. Se você se interessa por esse assunto, entre em contato para mais informações.


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