A Jornada Existencial em Kierkegaard: Instante, Angústia, Desespero e Psicoterapia
- Victor Portavales Silva
- 2 de dez. de 2025
- 8 min de leitura

Olá, pessoal! Sejam muito bem-vindos ao nosso post de hoje. Vamos mergulhar no pensamento de um dos filósofos mais complexos e fascinantes da existência: Søren Kierkegaard. Nosso foco será entender como ele articula conceitos centrais como o instante, a eternidade, a angústia, o desespero e, fundamentalmente, as implicações desses conceitos para a Psicologia e a Psicoterapia.
Kierkegaard utiliza diversos pseudônimos em sua obra, e isso não é por acaso! É uma forma de nos apresentar diferentes vozes e modalidades de existência. Hoje, vamos analisar reflexões trazidas por "A" (dos Estádios Eróticos Imediatos), Johannes de Silentio (de Temor e Tremor), Vigilius Haufniensis (de O Conceito de Angústia) e Anticlimacus (de O Desespero Humano/Doença para a Morte).
1. A Junção entre Temporal e Eterno: O Acontecimento do Instante
Para Kierkegaard, a junção entre o temporal e o eterno, que se manifesta no instante, é um tema central, por excelência. Mas o que exatamente ele quer dizer com instante?
O Instante versus A Ocasião
Na obra Migalhas filosóficas, sob a voz de João Climacus, o pensador dinamarquês estabelece uma distinção crucial entre ocasião e instante:
1. Ocasião: Esta é uma categoria do temporal. Ela se refere às contingências que são vistas como oportunidades para a construção de uma obra. Pensar no autoconhecimento, por exemplo, é uma ação temporal e finita, que acontece por ocasião, como no mundo grego, onde Sócrates atua como o mestre que oferece a oportunidade para o discípulo se conhecer.
2. Instante (Augenblick): Esta é uma categoria do eterno. O instante não é apenas uma oportunidade, mas sim a contingência que funda a possibilidade de uma transformação ou transubstanciação dos elementos.
O instante, em alemão, é Augenblick, que significa "piscar de olhos" ou espaço de visão. Nesse piscar de olhos, o instante cria o espaço de transformação. É neste momento de plenitude que o temporal e a eternidade se reconciliam, uma reconciliação que não existia antes.
2. Os Estádios da Existência: Estético, Ético e Religioso
Kierkegaard não propõe que um estádio seja superado pelo outro, como se fosse um progresso dialético, mas sim uma articulação entre eles: o estético (em constante mutação), o ético (em sua regularidade) e o religioso (em sua paixão, impossível de ser dita). A chave para essa articulação é, surpreendentemente, a experiência religiosa, que conecta o particular ao universal, e o temporal ao eterno.
Vamos nos focar inicialmente em como o estético se manifesta no instante, conforme o pseudônimo "A":
2.1. O Acontecimento do Instante Feliz (Estético)
"A", no texto Os estádios eróticos imediatos, reflete sobre o caráter clássico (eterno) de uma obra de arte. Para ele, o eterno se manifesta como a transformação da forma e da matéria, materializando-se na obra de arte, o que ele chama de instante feliz.
Um exemplo notável é a ópera Don Giovanni, de Mozart. "A" considera esta uma obra clássica por excelência porque nela ocorre a união, ou transubstanciação, do autor (Mozart) e da matéria (a sensualidade erótica). Essa união confere à obra seu caráter clássico e imortal.
Percebem o paradoxo, pessoal? O estético, frequentemente associado ao que está em mutação, aqui aponta para a eternidade.
O sensual, a sensualidade erótico-musical, só pode ser captado pela escuta, pelo ato de ouvir a música. Quando a linguagem tenta capturar essa experiência, ela a desvirtua, introduzindo a reflexão. Por isso, o Don Juan de Mozart precisa ser ouvido, não pode ser visto ou demonstrado com palavras, pois representa o sensível puro, anterior à reflexão. O estético é o imediatamente sensível, imprescindível, cuja retomada é fundamental para a experiência religiosa.
2.2. A Experiência do Sensível no Estádio Religioso (Fé)
Se a experiência estética no instante feliz é a materialização fática do sensível, a fé no estádio religioso também possui um caráter imediato e fático, que não pode ser expresso apenas pela palavra.
Johannes de Silentio, em Temor e Tremor, nos apresenta a figura de Abraão, o cavaleiro da fé. O ato de Abraão de sacrificar seu filho, Isaque, é um salto solitário. Diferentemente do herói ético, que tem seu sacrifício compreendido pelo senso comum e pelo universal, Abraão não pode contar com a anuência do universal, pois seu ato só é justificável pela fé.
No instante da decisão, Abraão se transforma do pai universal (que deve obedecer à norma geral) para o pai singular Abrahão, uma relação que se eterniza. A fé, portanto, exige uma determinação no temporal — o agora, o instante — sendo a única medida possível para a existência eterna.
3. A Angústia como a Atmosfera da Possibilidade
Mudamos agora o nosso foco para o conceito de Angústia, conforme desenvolvido por Kierkegaard, sob o pseudônimo Vigilius Haufniensis, em O Conceito de Angústia.
A Psicologia, neste contexto, é definida como a ciência cuja atmosfera mais característica é justamente a angústia. Ela lida com a situação de abertura — a possibilidade — que determina toda a forma de existência.
3.1. A Angústia como Determinação Existencial
A angústia é universal, mas se manifesta em formas particulares na vida de cada um. Ela não é algo exterior ao homem; ela "é aquilo ao redor do que tudo gira".
Na inocência, o homem é ignorância, um "nada" que faz nascer a angústia, que está apenas latente. A angústia se revela no momento em que o proibido se mostra como o que não pode. É a revelação do espaço da possibilidade de poder sim ou poder não.
Haufniensis define a angústia como a "realidade da liberdade como possibilidade antes da possibilidade". A angústia é essa vertigem ou tontura que sentimos quando o chão desaparece, revelando um espaço infinito de possibilidades. É a tensão constante entre a culpa (a determinação intransferível do espírito) e a liberdade (o caráter de possibilidade do homem).
3.2. A Escola da Angústia
O aprendizado essencial na existência é "aprender a angustiar-se". Haufniensis ilustra isso com o conto de João sem Medo, que busca aprender o medo. No conto, João se assusta com a coisa mais inofensiva — pequenos peixes pulando em sua barriga.
A moral kierkegaardiana é que a angústia surge na situação cotidiana da existência, e não pode ser definida ou fabricada antecipadamente.
Quem é formado pela angústia é formado pela possibilidade, e só assim se está formado de acordo com a infinitude. A angústia força o indivíduo a mergulhar no constante jogo existencial de possibilidades e determinações (infinitude e finitude), e é nesse instante que o aprendizado ocorre, levando à transformação. Quem foi educado nessa escola aprende que não se pode exigir absolutamente nada da vida.
4. Desespero e Sofrimento: Condições Inerentes à Existência
Vamos agora aprofundar a visão de Kierkegaard sobre o desespero e o sofrimento, conceitos cruciais para entender a experiência humana, especialmente no contexto de crises existenciais.
4.1. O Desespero (Anticlimacus)
Frequentemente, encaramos o desespero como um sentimento negativo que deve ser evitado, ligado à lamentação ou ao ressentimento. Mas Kierkegaard (pela voz de Anticlimacus) inverte essa lógica.
O desespero é a própria condição existencial do homem. O eu é desespero porque o homem não pode se posicionar ou determinar as condições de sua existência, mas, ainda assim, precisa se constituir dentro dessas condições.
O homem existe em uma tensão paradoxal:
• Entre contingência (finitude) e imaginação (infinitude).
• Entre os necessários (os limites nos quais não é livre) e a possibilidade (a liberdade de transcender esses limites).
Estar desesperado, no entanto, é a modulação negativa dessa condição. Significa ser presa da ilusão de poder o que não pode, ou não aceitar a existência em suas imposições e possibilidades. É tentar impor a própria vontade contra as condições dadas.
O Desespero do Fraco e do Infinito: O desespero se manifesta, por exemplo, como o desespero da fraqueza (ignorar que deve tornar-se si mesmo e se arrastar no instante) ou o desespero do infinito por carência de finitude (desconhecer seus limites, perdendo-se nos possíveis da imaginação, sem ações reais que promovam sua realização).
4.2. Dor versus Sofrimento
Kierkegaard e outros pensadores existenciais fazem uma distinção vital que nos ajuda a sair de uma compreensão ingênua da dor:
1. Dor: É a condição constituinte e inevitável do ser humano. Corresponde ao constante caráter trágico da existência, a dor do viver e de ter de ser. Metaforicamente, é a ferida ardendo. Na tragédia antiga, a dor era mais profunda que o sofrimento.
2. Sofrimento: É a experiência de se enfadar com a dor, a dor porque se tem dor. Consiste na reflexão sobre a dor. Metaforicamente, é a lamentação por estar ferido e ardendo. O sofrimento é uma possibilidade moderna, sustentada pela crença de que é possível viver sem dor nenhuma.
O sofrimento moderno é exacerbado pela crença de que os acontecimentos cabem exclusivamente à responsabilidade individual e pela vontade de ter feito as coisas diferentemente. A lamentação e a queixa nos afastam da experiência da dor que é a vida.
5. Implicações Clínicas: Angústia e Psicoterapia Existencial
Como esses conceitos se aplicam à clínica, especialmente no tratamento de pessoas em risco de suicídio?
5.1. A Psicologia na Atmosfera da Angústia
O pensamento de Haufniensis sobre a angústia proporciona os elementos para uma psicoterapia que não julga nem teoriza, mas que sustenta a existência como um espaço onde tudo aparece como possibilidade.
A Psicologia deve se ocupar da existência humana em suas expressões, baseada na angústia e na liberdade, reinterpretação que a torna autônoma da biologia e fisiologia. A subjetividade é vista como a tensão entre liberdade e culpa, bem e mal.
O psicoterapeuta existencial não assume o lugar do especialista. Ele reconhece que a angústia jamais pode ser superada. Seu papel é despertar o indivíduo da ilusão, identificando os modos pelos quais ele tenta manter obscurecida a tensão de sua angústia.
A transformação é um salto qualitativo, que acontece como um susto, um rubor, o inesperado. O terapeuta precisa ser o facilitador, mantendo a atmosfera da angústia, sustentando a possibilidade de transformação sem propor medidas ou orientações. Ele deve aguardar o momento propício para que o inesperado se dê, assim como os peixinhos saltitantes que assustaram João sem Medo.
5.2. Desespero e Sofrimento no Discurso Clínico
Em uma pesquisa com pessoas em risco de suicídio (Feijoo, Protasio, Sant’Anna, 2018), observou-se que o desespero e o sofrimento estão presentes nos discursos, mas é crucial não tomá-los como causa simples ou identificadores de um perfil.
• Lida com o Desespero: O desejo de morrer nem sempre implica que o analisando esteja consciente de sua condição de desespero. Muitos analisandos tentam terceirizar a tarefa de viver ou culpabilizam terceiros pela dificuldade, vivendo na ilusão de que sua ação é necessidade, não possibilidade. O estar desesperado aparece na impaciência, na tentativa apressada de impor a vontade sobre as circunstâncias.
• Lida com o Sofrimento: A análise existencial dos relatos revela que o sofrimento, muitas vezes, advém da queixa sobre a incompreensão dos outros ou da evitação da dor. Há uma expectativa de que a vida deva ter um sentido transcendente. A lida com a dor como algo a ser extirpado, característico do horizonte histórico, é o que gera o sofrimento (a dor da dor).
6. Considerações Finais
Pessoal, para finalizar, o que fica claro é que Kierkegaard, através de seus pseudônimos, nos convoca a retornar ao caráter fático da existência.
A articulação entre os estádios da existência, e entre os conceitos de finito/infinito, temporal/eterno, só se dá no instante — o único tempo e espaço possível para que o eterno se manifeste.
A Angústia é a atmosfera da possibilidade e a realidade da liberdade. E o Desespero é a condição de ser do eu, sendo a tarefa existencial conquistar a si mesmo, abdicando da ilusão de que se pode viver sem dor.
A Psicoterapia Existencial, inspirada por essa visão kierkegaardiana, busca sustentar a tensão paradoxal da vida, permitindo que a transformação se manifeste no instante do susto. Ao invés de buscar soluções ou certezas éticas, ela se torna uma arte que cria e recria possibilidades, onde antes parecia haver apenas restrições.
Afinal, as questões que aparecem naqueles que pensam em suicídio são, em essência, as mesmas que se fazem presentes nos que não pensam. Trata-se da decisão sobre o caminho a tomar frente à dor, ao sofrimento e ao desespero.
Obrigado por acompanharem esta complexa, mas fundamental, jornada pelo pensamento de Kierkegaard. Se você quer se aprofundar, conheça nosso curso Fenô Descomplicada, que te leva das bases filosóficas às práticas clínicas. Até a próxima!
Referências:
Feijoo, A. M. L. C., Protasio, M. M., & da Silva Sant’Anna, G. (2018). Desespero e sofrimento no discurso de pessoas que pensam em tirar a própria vida: uma análise existencial. Revista Pesquisa Qualitativa, 6(11), 328-350.
Feijoo, A. M. L. C., & Protasio, M. M. (2011). Análise existencial: uma psicologia de inspiração kierkegaardiana. Arquivos Brasileiros de psicologia, 63(3), 72-88.
Feijoo, A. M. L. C. (2007). Os fundamentos da clínica psicológica na filosofia de Soeren Kierkegaard. Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies, 13(1), 111-124.




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