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Como a Fenomenologia Existencial Mudou Minha Vida, e Porque Devemos Estudá-la

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O texto de hoje é um pouco diferente, é mais autobiográfico e uma espécie de confissão. Meu objetivo é compartilhar como a fenomenologia existencial mudou a minha vida em diversos aspectos. E pra isso eu preciso contar algumas histórias. A primeira é como eu cheguei até a psicologia, e de que modo e porque me aproximei da fenomenologia existencial...


Eu Tinha Medo de Arriscar

A psicologia não foi minha primeira opção em termos de graduação. No ensino médio cursei o Técnico em Eletrônica, no CEFET-RJ, e estava decidido a continuar nessa área ingressando no curso de Engenharia Elétrica na UFRJ. Eu tinha 17 anos e estava estagiando para obter meu diploma do curso técnico. Essa experiência profissional não foi das melhores, devido a um ambiente um pouco conturbado, onde as atividades não eram muito bem definidas e as relações pessoais eram distantes. Eu já havia passado no vestibular, e comecei os estudos após um semestre de estágio.


Nessa época eu fazia psicoterapia devido à minha ansiedade social e outros temas pessoais. Quando entrei na faculdade me vi desanimado e desesperançoso em relação ao futuro. Não me imaginava fazendo atividades técnicas pelo resto da vida, o que tirou toda minha motivação para os estudos. Mesmo assim consegui passar nas disciplinas com algum esforço... Mas a dúvida corroía meu pensamento, e meu medo de me arriscar me paralisava.


Um belo dia, em minhas andanças na volta da faculdade parei em um sebo e me deparei com um livro de título "O Significado de Ansiedade", do psicólogo Rollo May. Achei que o título tinha tudo a ver comigo, e o comprei na esperança de entender um pouco mais sobre as raízes da minha ansiedade. O livro em si não era muito bom, mas tinha diversas citações de um autor misterioso, de nome difícil. Mais tarde eu viria descobrir que se tratava de um filósofo dinamarquês. Uma das citações dizia:


"Aos olhos do mundo, o perigo está em arriscar, pela simples razão de se poder perder. Evitar os riscos, eis a sabedoria. Contudo, a não arriscar, que espantosa facilidade de perder aquilo que, arriscando, só dificilmente se perderia, por muito que se perdesse, mas de toda a maneira nunca assim, tão facilmente, como se nada fora: a perder o quê? a si próprio. Porque se arrisco e me engano, seja! a vida castiga-me para me socorrer. Mas se nada arriscar, quem me ajudará? tanto mais que nada arriscando no sentido mais lato (o que significa tomar consciência do eu) ganho ainda por cima todos os bens deste mundo — e perco o meu eu."

Kierkegaard, em "O Desespero Humano"


Esse trecho me tocou profundamente e me fez refletir. Esse foi um momento de virada, em que percebi que minha imobilidade se sustentava em uma obediência "às vozes do mundo". Eu estava em um curso concorrido, difícil de ingressar, e que as pessoas dizem que tem uma boa remuneração e boa empregabilidade. Como poderia eu abrir mão disso? Ao mesmo tempo, permanecer nesse caminho seria me perder de mim mesmo. Aquele curso não fazia sentido pra mim, e estudar aquelas matérias consistia em um martírio para mim.


Após a leitura do trecho eu tive um lampejo, um momento de epifania, e decidi prestar o vestibular para o curso de psicologia. Minhas opções eram a UERJ e a UFRJ, e o primeiro exame de admissão da UERJ já havia acontecido. Me inscrevi nos dois vestibulares, porém mais inclinado à UERJ que possuía turno noturno e me permitiria conciliar as duas faculdades durante um tempo ou trabalhar e estudar. Tive conceito A no segundo exame de admissão, o que facilitou minha entrada nessa universidade.


Entrei na UERJ já interessado em psicologia existencial, influenciado pelas articulações entre Kierkegaard e a psicologia. Por sorte, na UERJ havia uma professora de referência nessa perspectiva, a professora Ana Maria Feijoo. Iniciei, já no primeiro semestre, minha jornada de busca pela psicologia existencial, o que acabou me aproximando também da fenomenologia. Mas eu gosto sempre de lembrar que tudo começou com uma pequena citação, de um parágrafo, de Søren Kierkegaard. Não fosse por ele, eu não teria me tornado psicólogo.


Eu era extremamente tímido e ansioso

Minha hesitação em mudar de área estava relacionada também a outros traços de personalidade. Eu sempre fui uma pessoa muito controlada, o que também gerava uma ansiedade muito grande. Eu acreditava que seria possível me antecipar e prever cada situação, evitando desfechos indesejados. Isso gerava uma sobrecarga emocional muito grande, e me travava completamente, sobretudo nas interações sociais. Eu evitava desagradar as pessoas, e o jeito mais fácil de não desagradar é permanecer calado, não expor opiniões e não contrariar o outro.


Após ler compulsivamente textos da psicologia fenomenológico-existencial, eu comecei a refletir mais sobre temas como finitude, liberdade e responsabilidade. Essas leituras me fizeram perceber que a angústia é algo inerente à existência, e que não seria possível fugir do desconforto para sempre. Eu acabei incorporando diversas discussões da fenomenologia-existencial em minha própria existência, e passei a me permitir ser um pouco mais autêntico e deixar de me refugiar na inação e na mera reflexão. A filosofia da ação de Kierkegaard me fez pensar menos e agir mais. As máximas de Sartre me fizeram assumir minha responsabilidade diante de minhas decisões. As discussões de Heidegger sobre o ser-para-a-morte me confrontaram com minha própria finitude e me fizeram ter ciência de que meu tempo não é infinito.


Tudo isso acabou contribuindo para reduzir um pouco minha ansiedade social e me permitiu interagir com outras pessoas. Isso foi essencial, porque me preparou para o estágio, que seria impossível com meu grau inicial de timidez. Mas ainda restava um problema...


Eu achava que havia um jeito certo de clinicar

Quando comecei meu estágio clínico eu ainda achava que seria possível ter a resposta de qual seria a intervenção ideal em cada situação. Eu lia casos clínicos de outras pessoas e queria ser como elas. Nesse processo, eu acabava me afastando de mim mesmo e da possibilidade de descobrir meu próprio estilo.


As supervisões com a professora Ana Feijoo foram essenciais, porque me fizeram perceber que é muito mais fácil saber o que não fazer do que ter a certeza do que se deve fazer. Foram anos de estudo e supervisão até que eu pudesse me permitir atuar de uma maneira um pouco mais livre e confiante.


Nos meus primeiros atendimentos eu não conseguia intervir, ficava completamente imobilizado pelo meu medo de errar. Até hoje uma das minhas características como clínica é que eu ouço muito mais do que falo, e minhas intervenções são muito pontuais. Mas quando comecei isso beirava um extremo. Por sorte, as primeiras pessoas que atendi gostavam muito de falar, o que me permitia sentir algum conforto em minha própria mudez.


Com o tempo, fui percebendo através das supervisões, das leituras, e da escuta da atuação de meus colegas, que não há um caminho único ou uma resposta definitiva sobre como atuar na clínica. Hoje eu entendo que o fundamental são as balizas éticas que nos guiam, e não as técnicas que empregamos. Mas levou muito tempo até que eu pudesse perceber que não há um jeito certo de clinicar.


No meio do meu percurso tive um evento pessoal que só pôde ser superado por tudo o que aprendi com a psicologia fenomenológico-existencial.


Só consegui retomar minha vida pelo que aprendi

Em 2017 eu vivenciei uma tentativa de suicídio extremamente violenta, que me levou a uma internação de meses, em que fiquei confinado a uma cama para que pudesse me restabelecer física e mentalmente. Nesse processo eu perdi minha perna esquerda, fiquei extremamente fraco, precisei passar por um procedimento de traqueostomia que dificultou ainda mais minha comunicação, e, em meio a tudo isso, precisei refletir sobre minha própria existência.


Somente através dos estudos em fenomenologia-existencial eu pude me afastar dos estigmas que circundam uma tentativa de suicídio. Pra mim seria impossível recomeçar sem ter acesso a essas discussões.


A filosofia existencial também foi a base para que eu compreendesse que ainda havia um caminho a ser percorrido. A ideia de que estamos sempre em construção. recomeçando a cada decisão tomada, foi o que me permitiu retomar minha vida. Se eu acreditasse que tudo estava decidido eu teria simplesmente desistido. Mas foi a força do pensamento existencial que me guiou nessa tarefa existencial de me reconstruir com inúmeras sequelas e dificuldades.


A fenomenologia existencial me ensinou sobre aceitação

No final das contas, a fenomenologia existencial me ensinou a aceitar a vida como ela é, percebendo meus limites de atuação me levando a decisões mais autênticas. Eu acho engraçado o quanto algumas perspectivas, como as TCC (Terapias Cognitivo-Comportamentais), levaram décadas para refletir sobre a aceitação. A ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) incorpora elementos que foram tematizados por Kierkegaard no século XIX, e pelos estoicos muito mais tempo atrás. Mas cada um faz suas descobertas em seu próprio tempo e à sua própria maneira. Minha maneira foi através do estudo da psicologia fenomenológico-existencial.


Meu caminho pessoal está completamente entrelaçado com a fenomenologia-existencial, e pra mim já é impossível pensar a vida sem essas bases. Justamente por isso eu acho tão importante estudar essa perspectiva.


Antes de escrever esse texto eu compartilhei com os(as) seguidores(as) da página um formulário do Google com a pergunta "Como a fenomenologia-existencial afetou sua vida, e por que devemos estudá-la?" e uma das respostas chamou minha atenção... A pesquisa foi realizada de forma anônima, e compartilho a resposta aqui sem identificar o(a) respondente:


"Ao estudar as outras abordagens, na minha graduação, eu pensava 'está faltando alguma coisa'. Quando finalmente comecei a estudar a psicologia fenomenológica existencial, eu encontrei exatamente o que estava faltando. Apesar de os textos serem bastante difíceis, eu me apaixonei à primeira vista! Ao entrar em contato com o pensamento de Husserl e Heidegger, a psicologia ganhou um novo sentido para mim. Essa abordagem mudou totalmente a minha visão a respeito do que é o ser humano, e como podemos lidar com os dilemas e desafios que a vida apresenta. Trouxe um novo olhar para as relações interpessoais, a angústia, o desespero, as incertezas, o medo da morte. Justo naquele semestre em que estava aprendendo sobre tudo isso, eu acompanhei bem de perto uma pessoa próxima que teve um adoecimento muito grave e acabou falecendo mesmo sendo muito jovem. Tudo isso me fez refletir profundamente, repensar minha vida inteira, e o que eu estava estudando na faculdade fazia muito sentido diante do que eu estava vivenciando e discutindo na minha psicoterapia pessoal (também pela mesma abordagem). Com o tempo, aprendi a gostar cada vez mais de filosofia, e cada nova leitura tem sido uma aventura! O que eu mais gosto na abordagem é o fato retirar o psicólogo do papel de especialista conhecedor de respostas dadas de antemão e, em vez disso, propiciar uma relação mais horizontal, um movimento de pensar juntos através do diálogo, levando a um autoconhecimento muito transformador!"


Essa resposta sintetizou em um parágrafo tudo o que escrevi acima, e se conecta totalmente com minha própria vivência... Mas e você, como tem sido afetado(a) pela psicologia fenomenológico-existencial? Comente aí embaixo!

 
 
 

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