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Técnica e Techné na Psicologia Clínica


Olá a todos! Sejam bem-vindos à nossa postagem de hoje. Preparem-se para mergulhar em um tema fascinante e profundamente relevante para a compreensão do homem contemporâneo e da prática da psicologia clínica: a distinção entre técnica e téchne e suas implicações na nossa experiência de solidão e nos relacionamentos afetivos na era da técnica. Vamos juntos desvendar como o pensamento de Martin Heidegger, Ana Feijoo, Roberto Novaes de Sá, Cristine Mattar e outros nos ajuda a refletir sobre esses conceitos e o papel da psicoterapia neste cenário.


Técnica e Téchne – Um Diálogo Essencial com Heidegger

Para iniciarmos, é fundamental compreendermos a distinção central proposta por Heidegger entre a técnica no sentido moderno e a téchne no sentido originário grego. Pensem comigo: qual é a essência da tecnologia que nos cerca hoje? Heidegger nos convida a ir além da visão instrumental e antropológica comum, que vê a técnica apenas como um meio para atingir um fim, ou como algo criado e dominado pelo homem. Ele nos desafia a questionar a técnica em sua essência para que possamos estabelecer uma relação livre com ela, evitando tanto a aceitação incondicional quanto a rejeição ou alienação.


A essência da técnica, tanto moderna quanto a téchne tradicional, reside no desvelamento. O que isso significa? Significa trazer à luz, tornar manifesto aquilo que estava oculto, a alétheia, que comumente traduzimos como verdade. No entanto, a forma como esse desvelamento acontece é radicalmente diferente em cada caso.


Na técnica moderna, o desvelamento se dá por um desafio à natureza. Pensem em como a energia hidrelétrica é gerada: o rio, que antes seguia seu curso tranquilamente, é agora provocado, manipulado e transmutado para se tornar um recurso a ser explorado e armazenado. A realidade torna-se subsistência, um "fundo de reserva" disponível para uso e exploração. O comportamento diante da natureza é de provocação, buscando extrair, transformar, estocar e distribuir recursos para acumulação e consumo, num processo circular que leva ao descarte e recomeço, visando ao domínio e transformação da natureza. Nesse modo de desvelamento, o controle e a segurança são marcas fundamentais. A essência da técnica moderna, segundo Heidegger, é o Gestell, traduzido como "armação", "composição" ou "enquadramento", um modo pelo qual a realidade se desvela como subsistência, um fundo de reserva a ser explorado e armazenado. O perigo aqui não está na máquina em si, mas na perda da liberdade frente a esses dispositivos, podendo o homem tornar-se escravo de sua própria criação.


Já a téchne, no sentido originário grego, tem um modo de desvelamento diferente: é um "levar à frente" ou "deixar vir à presença". Aqui, o comportamento frente à natureza é um deixar-acontecer, aceitando os limites do que pode acontecer, sem desafiar. A téchne refere-se a um conhecimento que se dá pela compreensão, um conhecer no ato de produzir, antecipando para tornar manifesto o que se apresenta por si mesmo. É como um artesão que, ao produzir uma taça de prata para um culto, não age como uma causa eficiente que simplesmente provoca um efeito, mas sim permite que a taça "venha à presença", co-responsavelmente com a prata, a forma, e o propósito do culto. Esse modo de desvelamento ocorre sem visar à subsistência, reconhecendo os limites e paradoxos da própria existência. A poiesis (produção) é fundamental, seja nas coisas da natureza (physis), que surgem por si mesmas, seja na arte ou no artesanato (téchne), onde o artista ou artesão intervêm para deixar aparecer o que se oculta.


Heidegger relaciona esses modos de desvelamento a duas modalidades do pensamento humano: o pensamento calculante e o pensamento meditante. O pensamento calculante, predominante na modernidade, acredita na razão como perfeição e busca prever e controlar tudo ao redor. Ele considera a meditação como superficial e sem utilidade prática. É o pensamento que busca resultados objetivos e verificáveis, alinhado aos princípios da física da natureza. Em contraste, o pensamento meditante exige grande esforço, dedicação e um debruçar-se sobre o que nos é mais próximo, sem se fixar em apenas um aspecto ou representação. Meditar implica parar diante das coisas e refletir sobre elas, mesmo que pareçam inconciliáveis, permitindo-se abrir a outras possibilidades de compreensão.


A Psicologia Clínica – Entre o Sujeito Encapsulado e o Dasein

Agora, vamos aplicar esses conceitos à psicologia clínica. Pensemos: a clínica psicológica opera como técnica ou como téchne? A resposta é complexa, pois ela pode se dar de diferentes maneiras.


Tradicionalmente, a psicologia, ao se inserir na modernidade, adota a ideia de um "eu" interiorizado, um sujeito. Essa concepção é profundamente influenciada pelo Ego Cogito de Descartes, que fundamenta a ciência moderna na objetividade, e no determinismo e certeza universais. O sujeito cartesiano é visto como uma substância passível de manipulação, uma "coisa pensante" com propriedades mensuráveis, sobre o qual se aplicam os princípios da física da natureza. Nesse paradigma, o homem é o "senhor de tudo o que há na natureza", buscando superar todos os limites e resolver paradoxos através da razão e de um método certo e seguro. A psicologia científica, ao tentar se conciliar com a objetividade, buscou sua "substância" – o aparelho psíquico, o sujeito, a personalidade, o eu, o self, o consciente e o inconsciente – como algo encerrado em si mesmo, passível de mensuração e controle. Isso é evidenciado no behaviorismo de Skinner, que estudava o comportamento como substância mensurável, ou mesmo em abordagens como a de Rogers, que, embora centrada na pessoa, ainda parte de uma ideia de um "eu" interiorizado.


Quando a psicologia clínica opera como técnica moderna, ela atua no modo do desafio. O "eu" do homem é visto como um recurso a ser explorado, com o objetivo de torná-lo produtivo, bem-sucedido, e "feliz para sempre". Aqui, a psicoterapia se baseia em uma perspectiva positivista, organizando técnicas e estratégias para modificar o comportamento ou promover a tomada de consciência, buscando resultados mensuráveis e socialmente aprováveis. Pensemos nos laudos psicológicos que descrevem uma criança com "recursos intelectuais indevidamente explorados", sugerindo que suas "potencialidades poderão emergir desde que a criança possa ser devidamente trabalhada". Essa é uma visão que desafia o real do existir humano, transformando-o em um "fundo de reserva" – as potencialidades – para se tornar uma "força de trabalho" ou um "aluno-referência". Predomina um pensamento calculante, que busca direcionar o comportamento para o "mais adequado", como uma equação matemática. O homem é tomado como um "eu encapsulado" que precisa ter seus "defeitos" superados e carências preenchidas.


Por outro lado, pensar a psicologia clínica como téchne implica em uma mudança radical. Essa perspectiva busca seus fundamentos na filosofia da existência, rompendo com a objetivação do homem e o paralelismo entre teoria e prática. Para isso, ela se afasta da noção de sujeito cartesiano e adota o conceito de Dasein (Ser-aí) de Heidegger. O Dasein não é uma substância fechada, mas sim a abertura em relação ao mundo, o "ser-lançado-no-mundo" cuja mera presença implica na possibilidade total da existência. O homem não é um "eu" encapsulado ou um objeto passível de objetivação, mas uma "co-pertinência homem-mundo".


Na clínica como téchne, o desvelamento se dá no sentido de "levar à frente" ou "deixar aparecer por si mesmo o que se oculta". O psicólogo atua como um facilitador, que permite que o homem "transpareça a si mesmo ao seu modo e a partir de si mesmo". Não há um referencial de verdade predeterminado, nem um "melhor caminho" a ser indicado. A psicoterapia, nesse sentido, é um pensamento meditante, que aponta para a libertação do homem para si mesmo, sem direções ou certezas. Ela visa ao reconhecimento dos limites que a própria existência impõe ao homem, permitindo que ele se reconheça em sua finitude, temporalidade e imperfeição, suportando o presente sem fugir para o futuro ou passado.


O psicoterapeuta, como um techinites (artesão/artista), atua na criação de um "discurso meditante", quase uma "criação poética", que possibilita a fluidez e o movimento, para que o cliente se dê conta de suas possibilidades sem se encerrar em si mesmo. Não se trata de uma técnica interventiva ou manipuladora, mas de uma téchne que desvela um meio de deixar aparecer aquilo que tinha possibilidades de ser, através da escuta e da fala como "hermenêutica do sentido ao modo do diálogo". A psicologia clínica ao modo da téchne se aproxima da arte como desvelamento e se afasta da técnica como instrumento de desenvolvimento.


Solidão e Relações Afetivas na Era da Técnica

Agora, vamos conectar esses insights sobre a técnica e o Dasein com um tema muito presente na clínica: a solidão e as relações afetivas.


Na era da técnica, a solidão é frequentemente percebida como um mal a ser evitado a todo custo, muitas vezes confundida com o "isolamento interpessoal" – a ausência de habilidades sociais para interações íntimas. Yalom, por exemplo, embora reconheça o "isolamento existencial" como uma condição inalienável, ainda aborda a solidão como uma "lacuna intransponível" entre o eu e os outros. Isso pressupõe o homem como um "sujeito encapsulado", uma interioridade separada do mundo e dos outros, que se volta para conhecer, controlar e explorar.


No entanto, para Heidegger e Medard Boss, essa ideia de homem como sujeito encapsulado não traduz sua estrutura ontológica mais própria. O Dasein é essencialmente "ser-no-mundo-com-o-outro". Mesmo no isolamento, o Dasein é "ser-com", uma "co-presença". Uma mesa não pode ser solitária, mas o homem sim, porque seu modo de ser é originariamente ser-com os outros. O "cuidado" (Sorge) é a característica ontológica do Dasein de estar sempre em relação com outros entes, seja na "ocupação" (Besorgen) com entes simplesmente dados (objetos), seja na "preocupação" (Fürsorge) com outros entes dotados do mesmo modo de ser (outras pessoas).


Na era da técnica, o modo mais imediato de o Dasein se relacionar consigo mesmo e com os outros é instrumental. O homem se apreende como "sujeito", "individualidade" em contraposição ao mundo "exterior" e separado dos outros sujeitos. Diante da angústia e do vazio de sentido, tende a desviar-se, aferrando-se a interpretações impessoais e buscando controle, certeza e segurança nas relações. O "ser-com-o-outro" é reduzido ao mundo das ocupações, onde imperam a dependência e a dominação.


O sentido que damos à solidão e aos relacionamentos afetivos hoje é desvelado por esse modo histórico da era da técnica. Buscamos aplacar a solidão e obter segurança através do controle do outro ou da repulsa a qualquer comprometimento. O homem desvela a si próprio e ao outro como "fundo de reserva" disponível ao uso, como meios para um fim. As queixas nos consultórios refletem isso: ciúmes, controle do parceiro, temor da traição e abandono, busca por "vantagens" (aparência, bens) no parceiro, e a sensação de "vazio" na ausência do outro. Os relacionamentos tornam-se "alianças estratégicas", temporárias, mantidas enquanto convenientes ou enquanto proporcionam "ganho" ou "bem-estar", um reflexo do "individualismo ontológico" onde o outro é visto como aliado ou obstáculo.


Boss nos ajuda a aprofundar essa reflexão. Ele contraria o senso comum ao afirmar que solidão e comunidade não se excluem, pois a solidão é, paradoxalmente, uma forma de comunidade. Só se pode ser sozinho tendo como referência a comunidade. Para ele, a ausência de alguém não significa um vazio, mas um modo de sua presença, às vezes mais próxima do que a presença física. Somos essencialmente "com os outros", destinados à comunidade no sentido de co-pertencimento, diante de um mesmo mundo comum. A solidão é possível precisamente porque somos aberturas de sentido, capazes de acolher e trazer à presença o que está mais afastado.


O paradoxo central da modernidade, segundo Boss, é a proximidade geográfica entre os homens e seu distanciamento existencial. Os meios de transporte e comunicação nos aproximam fisicamente, mas nos sentimos cada vez mais isolados e estranhos entre si. Isso ocorre porque atrelamos a proximidade existencial à distância mensurável, reduzindo os significados espaciais. O homem moderno sofre um profundo desenraizamento, respondendo a apelos utilitaristas e tornando-se um "eu individual, auto-encapsulado". A busca por segurança leva a um "modo de ser com o outro" que é restritor, onde o outro é desvelado como "algo a serviço de minha satisfação". Isso, ironicamente, aprofunda o distanciamento existencial. A solidão é então vivida como sofrimento, pois, mesmo próximos, não nos sentimos de fato junto ao outro. A personagem Grete Samsa, de Kafka, que transformava seu irmão Gregor de "ele" para "isso" à medida que ele deixava de servir ao seu papel, é um exemplo emblemático dessa redução do outro a um objeto utilitário.


A Psicoterapia como Espaço de Meditação

Diante desse cenário, qual é o papel da psicoterapia? A queixa recorrente de dificuldades de relacionamento e intolerância à solidão nos consultórios não deve levar o psicoterapeuta a um simples "ajustamento" do indivíduo aos ditames da medianidade ou à busca de um parceiro amoroso ideal.


Em vez disso, a clínica pode se tornar um espaço de reflexão e tematização desse modo histórico de desvelamento, ou seja, um espaço para a meditação. O pensamento meditante, como alternativa ao pensamento calculante, propõe um novo enraizamento. As raízes da nossa civilização foram destruídas pela era da técnica, que nos afastou de referências ancestrais, limitando-nos a uma única forma de compreensão do real baseada no controle e mensuração. O pensamento meditante exige que não nos fixemos em um só aspecto, que não sejamos prisioneiros de uma única representação ou direção, e que aceitemos nos deter sobre coisas que, à primeira vista, parecem irreconciliáveis.


Na psicoterapia, esse "espaço de meditação" abre outras possibilidades de pensar, uma reflexão que se afasta da linguagem hegemônica, técnico-calculante. O modo de pensar calculante é um "destino", não algo a ser vencido, pois estamos imersos nele. No entanto, o meditar permite um "dar-se conta" – a possibilidade de perceber o jogo histórico que constitui nossos desejos, sonhos e formas de nos relacionarmos de um modo instrumental e privatizante. Esse "dar-se conta" é o campo de liberdade que nos é possível, não uma liberdade absoluta, mas a do ouvinte que se abre a outras possibilidades de interpelação.


O papel do psicoterapeuta não é, portanto, o de um operador que produzirá mudanças no paciente através de recursos técnicos, buscando superar a solidão ou melhorar relacionamentos. Ao invés disso, o clínico atua como um facilitador, que abre um canal "compreensivo-hermenêutico, reflexivo, de meditação". Nesse espaço, as experiências singulares de quem busca ajuda podem vir à luz, articuladas com o horizonte histórico que as constitui.


Esse movimento não tem um objetivo único de "superar a solidão", embora isso possa acontecer. Outros caminhos se tornam possíveis: o paciente pode perceber que a necessidade de um parceiro amoroso, como distintivo de sucesso pessoal, não atende às suas necessidades de sentido mais próprias. Ou pode aprender a lidar com sua solidão e até valorizá-la como um modo diferente de se relacionar com o que o cerca.


Para que isso aconteça, o psicoterapeuta, como aquele que vela por esse espaço de meditação, precisa suportar o paradoxo, a ambivalência e sua própria "impotência" no sentido de não ter as respostas prontas. Somente ao se colocar também como um ouvinte, atento aos apelos históricos que o convidam a ver o sofrimento como um "defeito" e a si mesmo como um "técnico capaz de corrigi-lo", ele pode abrir canais efetivos de comunicação com a experiência existencial daquele que o procura. Assim, tanto o paciente quanto o terapeuta podem se ver lançados, a partir da relação terapêutica, para outras possibilidades de "ser no mundo".


Em resumo, a clínica psicológica, ao adotar a perspectiva da téchne e do pensamento meditante, propõe um caminho de desvelamento que não desafia a existência, mas a acolhe em sua abertura, finitude e paradoxos. É um convite a reconhecer nossa inerente condição de "ser-com-o-outro" e a encontrar um novo enraizamento que nos liberte das amarras do cálculo e da instrumentalização, permitindo que a verdade de nossa existência venha à presença.


Esse texto é resultado das discussões presentes no nosso Curso de Introdução à Psicologia Fenomenológico-Existencial! Acesse a página do curso para mais informações.


Espero que esta postagem tenha sido esclarecedora e tenha provocado muitas reflexões em vocês! Até a próxima!


Referências:

Feijoo, A. M. L. C. D. (2004). A psicologia clínica: técnica e téchne. Psicologia em estudo, 9, 87-93.


Sá, R. N. D., Mattar, C. M., & Rodrigues, J. T. (2006). Solidão e relações afetivas na era da técnica. Revista do Departamento de Psicologia. UFF, 18, 111-124.

 
 
 

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