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Terapia com o Chat-GPT?

Diversos sites de notícias tem divulgado que um número cada vez maior de brasileiros(as) tem utilizado inteligências artificiais, como o Chat-GPT, para fazer terapia. O problema mais óbvio desse uso das IA's genéricas é a falta de preparo para a tarefa psicoterapêutica. Um chatbot como o Chat-GPT não foi feito para atuar como um profissional de Psicologia, e exibe um disclaimer quando é convocado a essa função. Mas gostaria de discutir a questão para além dessa obviedade.


Já existem chatbots elaborados especificamente para psicoterapia. A maioria deles se baseia na terapia cognitivo-comportamental (TCC), enquanto uma minoria oferece a possibilidade de escolha da perspectiva a ser adotada, incluindo opções como psicanálise, humanismo, gestalt-terapia, etc. O atendimento por chats de texto também já é prática comum e permitida pelo Conselho Federal de Psicologia, o que aproxima ainda mais o universo das IA's do cotidiano de psicólogos e psicólogas, tornando real a ameaça a seus postos de trabalho.


Embora a discussão sobre IA's na Psicologia tenha se disseminado recentemente, o primeiro chatbot com essa proposta foi criado na década de 1960. ELIZA foi um algoritmo criado por Joseph Weizenbaum utilizando técnicas de processamento natural de linguagem e simulava uma terapeuta rogeriana (Ou seja, da abordagem centrada na pessoa). Esse foi um dos primeiros programas a passar no teste de turing, de modo que a maioria das pessoas não era capaz de determinar se as respostas dadas pelo computador eram escritas por um humano ou pelo programa.


Passadas seis décadas, só agora, mediante grande avanço computacional, programas como esse se disseminaram e popularizaram. Eles possuem um custo menor que a terapia convencional, operam 24h por dia e 7 dias na semana, e acessam amplos bancos de dados para buscar respostas acerca de diagnósticos e condições específicas.


Ao mesmo tempo, vemos na internet brasileira o fenômeno da autoproclamada prática baseada em evidências em Psicologia (PBEP), uma proposta terapêutica que promete utilizar apenas as intervenções terapêuticas que possuem maior evidência de eficácia, com base em ensaios clínicos randomizados e avaliações através de revisões sistemáticas com metanálise. Para cada situação, o melhor protocolo de tratamento seria utilizado. O diagnóstico e o acompanhamento do avanço do tratamento seriam realizados através de inventários e escalas específicos, validados e seguindo grande rigor científico.


A pergunta que fica é: Dentro dessa proposta, não seria possível automatizar as tarefas? Escalas e inventários são facilmente aplicados através de programas de computador, e podem ter sua correção feita de forma automática. Se as intervenções puderem ser realizadas através da interação por texto, já temos tecnologia suficiente para automatizar também as intervenções que seguiriam de maneira ainda mais rígida os protocolos de tratamento. Estamos perto, em termos tecnológicos, de conseguir automatizar também a interação por voz, de modo que num futuro próximo seria mesmo possível oferecer algo muito similar às psicoterapias que temos hoje. Seria até mesmo possível criar avatares virtuais para simular a interação não-verbal através de atendimento online.


A verdade é que quanto mais nos aproximamos da técnica, mais somos devorados pela técnica. Quando nos baseamos em seus critérios, perdemos de vista o que há de eminentemente humano em uma relação. Já em 1947 Heidegger alertava Ludwig Binswanger, em crítica à sua busca científica no livro Formas Fundamentais (1947)¹:


“Diante do brilho do funcionamento científico empalidece o inaparente, mas decisivo, o fato de que os doentes nervosos, psíquicos e mentais são homens e de que o pesquisador e o médico se acham em um encontro humano com esses homens.”

Carta de Heidegger a Binswanger

24 de fevereiro de 1947


Em uma era completamente tomada pela tecnologia e pela técnica, os ditames técnicos parecem governar toda e qualquer decisão. Mas se agimos como máquinas então somos facilmente substituídos pelas máquinas, de modo que é preciso resgatar o que há de humano em nossas relações. Essa é a aposta de uma perspectiva fenomenológico-existencial em nosso tempo, o de uma escuta que possa se afastar do ver comum para ver melhor, pois como dizia Cecília Meirelles de forma poética:


O que tu viste amargo,

Doloroso,

Difícil,

O que tu viste inútil

Foi o que viram os teus olhos humanos.

Esquecidos...

Enganados...

No momento da tua renúncia

Estende sobre a vida

Os teus olhos

E tu verás o que vias:

Mas tu verás melhor...


Que possamos então renovar os olhares e a escuta, só assim poderemos enfrentar os desafios da época atual.


¹ Binswanger, L. (1964). Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins (4a ed.). Zurich: Max Niehans. (Obra original publicada em 1942)


 
 
 

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