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Sobre a Escuta em Grande Sertão: Veredas e Possíveis Contribuições à Clínica

Atualizado: 18 de out. de 2024

Aconteceu uma coisa na minha vida: Eu li Grande Sertão: Veredas. Isso não foi qualquer coisa para mim. Preciso compartilhar com alguém. E você me apareceu justamente quando eu mais precisava ser ouvido.


Contudo, entendo o conceito de troca equivalente. Como estou aqui vestindo a minha roupa de psicólogo, postando esse texto-desabafo em um blog para psicólogos, vou comentar a respeito de algo que é importante para esse público: a escuta. Não só a escuta, mas a sua potência. Você me dá o espaço para falar a respeito da minha experiência de ler Grande Sertão: Veredas e eu tento apontar a potência disso que é a escuta. Começo:


Para aqueles que não sabem, apresento: Grande Sertão: Veredas é uma obra do ex-médico, diplomata e escritor apaixonado por rios e gatos, João Guimarães Rosa. Ela se passa no sertão. Esse sertão não é algo que se encontra em mapa; ele é... Aí é que tá. Não sei se é possível com alguma exatidão prosseguir dizendo a respeito desse sertão quando este vem perseguido ou préseguido pelo famigerado ‘é’. O próprio ser narrado e narrante, protagonista dessa falação toda, Riobaldo, tenta inúmeras vezes apresentar e representar o que é esse sertão. Uma das minhas favoritas é: "O sertão é do tamanho do mundo." O que já destrói qualquer possibilidade de definição geográfica. Ainda mais se agrupar tal definição pela seguinte: "O sertão está em toda a parte. O sertão é dentro da gente.". Sou zagziguiado por tal possibilidade. E me parece que Riobaldo sabia que muitos não estão acostumados a lidar com essa ambiguidade tão presente na vida, porque diz: "O senhor tolere, isto é o sertão."


E é justamente por isso que decidi sentar, ou melhor, deitar, e escrever esse texto. Quando digo ‘isso’, não necessariamente estou comentando a respeito da definição do sertão (apesar de sertão, sendo o que ‘é’, ser isso também, já que: "Sertão é onde o homem enfrenta os mistérios."). O ‘isso’ se refere ao fato de que Riobaldo fala. Porém, não fala sozinho. O texto que parece um grande monólogo de Riobaldo, na verdade é um diálogo. Riobaldo fala com alguém. Essa coisa de difícil definição que é a contação de Riobaldo da sua experiência toma forma e contorno enquanto ele fala dela com alguém.


Riobaldo não fala de qualquer lugar. Nesse ponto da vida, já em idade avançada, o ex-professor tenta, de alguma forma, refletir acontecimentos que ele atravessou e o atravessaram. O ex-jagunço faz isso justamente retomando sua história. No caso, recontando sua história. De maneira literal, Riobaldo parte “Nonada” e chega na ‘Travessia.’ Falando em travessia: estou comentando essas coisas e talvez alguém esteja pensando: ‘O que isso tem a ver com a escuta?’. Eu já estou fazendo a curva para chegar lá.


A questão é que: Muito se comenta dos grandes personagens que compõem a obra. Como o próprio Riobaldo, o astuto Zé Bebelo, o sertão em si (como eu mesmo fiz), até mesmo a vida da linguagem contida na obra, e também o caleidoscópio que é a fauna e flora desse sertão que de alguma forma cabe nessas páginas. Alguns comentando até mesmo daquele João, o Guimarães Rosa. Porém, eu, que estou aqui vestido dessa profissão que tenho. Olho para o texto e dentre todos esses personagens o que mais me chama atenção não é nenhum deles.


O personagem que, de alguma forma ajuda no fazer iniciar essa história também é uma espécie de “Nonada”, ou quase nada. Já que ele não tem nome. Muito menos uma aparência definida. E, apesar de Riobaldo reagir e interagir com ele, nunca se sabe o que esse personagem diz exatamente. Esse personagem é a pessoa que está ali conversando com Riobaldo. Para mim, como leitor, esse é o personagem mais importante de todo Grande Sertão: Veredas.


Por quê? Porque sem esse personagem, muito provavelmente a história não existiria. Tento me explicar: Como tentei apresentar, Grande Sertão: Veredas é uma espécie de travessia. Mais especificamente, a travessia de Riobaldo. Tanto travessia como acontecido, ou seja, o passado de Riobaldo. Quanto travessia enquanto acontecendo, ou seja, o encontro dele com ele mesmo para se (re?)encontrar com questões a respeito de si. No caso, o que constitui ele e tudo mais. De certa forma, falando fenomenologês existencial, essa obra me toca muito mais como uma coisa de Kierkegaard do que de Heidegger. Mas isso é “sofisma”, como diz Riobaldo. O “sério” é que, nas palavras do Riobaldo, ele quer: “armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho.” O interessante é que ele nunca pede esse conselho. Talvez Riobaldo não quer que contem pra ele, mas sim busca um espaço onde possa se contar. Pois, o que ele quer é se encontrar de alguma forma: “mas eu, o que e que eu era? Eu ainda não era ainda. Se ia, se ia.” E no ato de se contar, ir se encontrado, ir se indo, se indo. Contar a sua história para o interlocutor faz parte desse processo. Esse compartilhar, esse se encontrar, esse ter alguém que escute, o próprio Riobaldo aponta como algo fundamental nesse processo de se saber, dessa coisa de se ir e se ir de encontro a si mesmo. Como ele diz nessa passagem:


“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa — a inteira — cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver — e essa pauta cada um tem — mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é.”


Riobaldo, além de outras coisas, nessa passagem tá dizendo que essa inteira, essa coisa que sempre foi dele, é coisa muito difícil de se encontrar sozinho. Por isso, na sua busca também procura alguma coisa ou alguém que possa ajudá-lo na procura. Paulo Rónai comenta que o começo da Grandes Sertões é enrolado. De alguma forma parece que Riobaldo faz círculos e mais círculos em volta do real assunto que ele quer trata. Sendo isso verdadeiro ou não, se aquele que acompanha a história se dispõe a prestar atenção vai notar que nada é de graça naquilo que Riobaldo diz. É mais ou menos aquela coisa que o Suassuna comentou quando apontou que: perto de buraco tudo é beira.


Todas as coisas que Riobaldo conta são à beira desse buraco de conhecer-se que ele quer achar. Riobaldo aponta para aquele que deseja o escutar bem que tudo é sério: “Eu? O sério pontual é isto, o senhor escute, me escute mais do que eu estou dizendo; e escute desarmado. O sério é isto, da estória toda — por isto foi que a estória eu lhe contei —”. Talvez por eu ser terapeuta, (honestamente esse talvez é eufemismo), esse movimento de Riobaldo me parece natural. Afinal, ele está falando com alguém que ele não conhece muito, nem muito conhece, pelo menos a princípio. O ex-tatarana não sabe bem se esse que o escuta realmente ouve bem, preta atenção, se escuta desarmado. Então, no começo, enquanto conta, ou seja, é visto, Riobaldo também assiste. Observa para tentar ver se aquele que a escuta tem constância de observar. Afinal, como ele mesmo diz: “Sou eu lá maluco? Aqueles outros não tem a constância de observar, não merecem a palavra dada.”


Pra se merecer palavra dada é preciso ter constância de observar. Afinal, se encontrar, achar a inteira que Riobaldo busca, é algo muito difícil de se fazer sozinho. Então ter um espaço de escuta se faz importante. Pois, apesar de Grande Sertão: Veredas ter mais de 400 páginas. Riobaldo não é simplesmente um grande falador. Já que o ex-lider não conta sua história para qualquer um. Contou para o Compadre meu Quelelém, grande amigo e mestre dele e para esta pessoa que o escuta. E só se dispõe a contar, Paulo Rónai comenta:


“Uma história dessas só pode ser contada pelo protagonista e em primeira pessoa. A indecisão do começo, em que lembranças fragmentadas se sucedem ao sabor das associações, corresponde à hesitação do narrador, que só depõe as reservas depois de ver fixo o interesse do ouvinte, o qual não somente desiste da intenção de prosseguir viagem no mesmo dia, mas anota a relação em sua caderneta.”


Concordo com Rónai, porque, é só depois que essa escuta é encontrada que Riobaldo comenta o que ele quer da conversa. Ele diz: “Conto ao senhor é o que eu sei e que o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba.” Cito isso para apontar mais uma vez da importância do encontro que é sustentado por essa escuta. Também para apontar mais uma vez que, apesar dessa fala, Riobaldo nunca faz a pergunta para aquele que ouve. Não aponto isso para dizer que o Riobaldo está sendo ilógico, ou se contradizendo. Afinal de contas ele é humano. Realizo tal apontamento para destacar o fato de que, muitas vezes, o mais importante não é uma espécie de resposta ou solução. Porque como Riobaldo já disse, isso que ele busca encontrar, desde sempre foi dele. O mais importante e também anterior a isso é a construção do espaço de escuta que possibilita o acontecimento.


O movimento de Riobaldo demonstra que isso não se dá a partir de uma espécie de neutralidade. Pelo contrário, através de um movimento interessado que se dispõe a escutar aquilo que vem ao seu encontro. E é por isso que, como leitor, meu personagem favorito é aquele que escuta Riobaldo. Porque sem ele Riobaldo não teria falado e Grande Sertão: Veredas nunca teria existido. Mas tá. Por que eu comento tudo isso? Porque o encontro na clínica, se não é a mesma coisa, é algo próximo disso. Melhor do que tentar explicar tal aproximação deixo o próprio Riobaldo dizer e sigo as suas palavras:


“O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho.  Mas, talvez por isto mesmo.  Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito:  faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?”


                E para se falar é preciso de um espaço de escuta. Aproveito para agradecer ao leitor por escutar o meu desabafo.

 
 
 

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