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Seria a Tecnologia nosso Último Deus?

Atualizado: 26 de dez. de 2022

Você também pode ouvir o conteúdo dessa postagem, se preferir:



Fora de sala de aula – “Para lhe mostrar que no fundo o ser humano é um animal de boa índole, eu lembrarei quão crédulo ele foi por tanto tempo. Somente agora, bem tarde e após ingente auto-superação, ele se tornou um animal desconfiado – sim! O ser humano é agora mais malvado do que nunca.” – Não compreendo isso: por que deveria o ser humano ser mais desconfiado e malvado agora? – “Por que tem, necessita ter uma ciência”

-Nietzsche, em A Gaia Ciência


No texto A Gaia Ciência, Nietzsche problematiza a chamada “Morte de Deus” como uma etapa no percurso e na trajetória do que ele nomeou como o “niilismo” presente no pensamento e na cultura ocidental. Para Nietzsche, a modernidade se configura como um momento de abandono de todas as bases e fundamentos metafísicos que guiavam a existência durante toda a idade média. A figura de Deus passa a ser questionada com base no pensamento lógico-racional e matemático-dedutivo, de modo que não restam elementos éticos e transcendentes que possam guiar e dar conta da própria existência.


Em meio a esse trajeto, a própria racionalidade científica teria nos encaminhado a uma aporia: Por um lado, a promessa de resposta e de acesso à verdade. Por outro, a plena destruição dos fundamentos e valores que guiavam a existência no contexto cristão. Para Nietzsche, Deus está morto e fomos nós quem o matamos. Com isso, resta a nós mesmos construir nossos próprios valores, já que não há mais valores transcendentes que nos sirvam de balizas existenciais.


O adjetivo “gaia” significa jovial ou alegre, de modo que o título do livro escrito por Nietzsche já revela a intenção do texto: a defesa de uma ciência ou saber que tenha características de alegria e jovialidade. O que significa que, para Nietzsche, a ciência moderna é sisuda, carrancuda ou velhaca. Esses dois modos de se fazer ciência, quando contrapostos, remetem à discussão sobre o apolíneo e o dionisíaco. Segundo o filósofo, no percurso da tradição filosófica ocidental, a ênfase racional e apolínea sobrepujou as manifestações dionisíacas, centradas no aspecto estético, sensível e intuitivo da existência. Desse modo, de certa forma, nossa ciência é incompleta. Porque deixa de lado parte importante da vida: os sentidos, a emoção e a intuição. E deixa de lado porque centra-se apenas em esquemas lógico-dedutivos ou empírico-indutivos. Comumente, ficam de fora as humanidades, a arte e a poesia. São consideradas pela ciência moderna como um “saber menor”, pois não se adequam ao método científico atualmente vigente.


Heidegger, por sua vez, foi fortemente influenciado pelo pensamento de Nietzsche. A galera da página Heidegger Pop resumiu bem a opinião de Heidegger acerca da discussão sobre a chamada “morte de Deus” em Nietzsche. Se não há Deus, ao menos Heidegger está olhando pra sua cara com desdém enquanto você acha que a morte de Deus é sinônimo de ateísmo e satanismo. Isso porque essas ideias não tem nada a ver com o que Nietzsche escreveu. O bigodudo doidão de sífilis era louco, mas nem tanto. Ele não estava falando de Religiosidade, mas de Filosofia. E, na Filosofia, Deus foi um elemento importante até o renascimento e o iluminismo, quando filósofos passaram a questionar sua existência e depositar toda a sua fé no chamado “método científico” e no exercício da razão. “Cogito ergo sum”, diria Descartes, revelando que, para ele, a razão é o fundamento mais sólido para a elaboração de uma estratégia de acesso à verdade.



Nesse sentido, tanto Nietzsche quanto Heidegger apontam que a ciência tornou-se quase uma nova religião no século XIX. Mas o apogeu da ciência e da racionalidade se viu abalado pela contraposição elaborada por pensadores como Kierkegaard, Dostoiévski, Nietzsche, Heidegger, dentre outros. O que esses autores têm em comum é a crítica à hegemonia de um modo de pensar que seria chamado, por Heidegger, de pensamento calculante. Esse pensamento calculante não se restringe à operação matemática e às contas aritméticas, mas se configura como um modo de relação pautado pela instrumentalidade. Isso significa a tentativa de controle absoluto de todos os entes e fenômenos.


Para Heidegger, a epítome do pensamento calculante é a técnica moderna. Nessa discussão, o filósofo da floresta negra argumenta que o percurso da técnica no ocidente foi restritivo, ignorando diversos sentidos em jogo na produção técnica e a concebendo apenas sob dois aspectos: o aspecto antropológico e o aspecto instrumental. Sob o ponto de vista antropológico, a técnica seria uma ferramenta. Algo à disposição do homem para ser utilizada. Do ponto de vista instrumental, a técnica seria um meio para alcançar um fim (estabelecido pela relação de causa e consequência). O problema, no entanto, é que a técnica já não é algo a serviço do homem, ou um meio para um fim. A técnica tornou-se um fim em si mesmo, e é ela quem domina o homem, não o contrário.


Sendo assim, pode-se argumentar que a tecnologia (ou a técnica) é um novo Deus, pois é ela quem dá as bases e fundamentos para qualquer atividade em nosso tempo histórico. O grande perigo é que talvez seja também nosso Último Deus. Isso porque o poderio técnico, e a desmedida acarretada por esse poderio, é capaz de causar um grande colapso e extinguir a própria humanidade.


Nietzsche certa vez utilizou o termo “ética dos escravos” para falar do cristianismo. Eu acrescentaria que essa terminologia também se aplica ao nosso novo e último Deus. Vivenciamos ainda uma “ética dos escravos”, porque, em verdade, somos escravizados pelos aparatos técnicos e tecnológicos que nos cercam, ainda que tenhamos a visível ilusão de sermos nós quem os operam e controlam.


Mas Heidegger é também um profeta do novo início. O título de sua entrevista à revista Der Spiegel é muito simbólico dessa profecia: “Já só um Deus nos pode ainda salvar”. A discussão sintetizada nessa frase está exposta na obra Contribuições à Filosofia: do Acontecimento Apropriador, considerada por alguns biógrafos como uma obra de conteúdo místico e muitas vezes ininteligível. Nesse livro, Heidegger lança a ideia de que seria necessário refundar o pensamento ocidental sob novas bases, estabelecendo então a necessidade de um “novo início”, ou de um “novo Deus”.


A esperança já estava expressa nos versos de Holderlin, citados ao final da conferência A Questão da Técnica:


Mas onde há perigo,

Cresce também a salvação


Muitos acusam Heidegger de ser um ateu pessimista e desesperançoso. Contudo, após tomar ciência dessa discussão, ele parece o mais carola dentre os pensadores contemporâneos, já que deposita a esperança de salvação na possibilidade de um novo início.


Mas resta ainda indagar: “Já só um Deus nos pode ainda salvar?” ou seria a técnica e a tecnologia nosso “Último Deus”? O que nos aguarda? Um fim derradeiro e a completa aniquilação, ou a salvação na promessa de um novo início? Comentem aí em baixo.

 
 
 

2 comentários


Paulo Braga
Paulo Braga
25 de nov. de 2022

Como manchete, "Seria a Tecnologia nosso Último Deus?" vai bem - e a interrogação vem a calhar. Mas não é razoável (sic, pois se refere a "razão") afirmar que a ciência consideraria domínios do conhecimento colecionados sob a sigla "humanidades" como "saber menor", mesmo que exista quem cometa tamanho equívoco. De volta à manchete, uma grande diferença existe entre a ciência e o(s) Todo-Poderoso(s): estes quase sempre são descritos como possuidores de uma contraditória humanidade, pois têm vontades, afetos e, principalmente, certeza absoluta e unidirecionalidade argumentativa (figura apenas: deuses não argumentam). Do outro lado, a ciência tem clareza de que ela se trata de um acervo em construção e contínuo aperfeiçoamento - como é fundada no método experimental, quanto mais refinados se tornam…

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Victor Portavales Silva
Victor Portavales Silva
25 de nov. de 2022
Respondendo a

Bom dia, Paulo! É sempre bom e estimulante debater com você, pois não exita em expor sua opinião e apresentar contraposições... De fato há algum grau de falácia e sensacionalismo no meu argumento, já que ele toma o todo pela parte. A ciência não é um todo homogêneo, mas minha crítica se dirige às vozes que tem se tornado hegemônicas no interior da ciência. O grande risco do que Heidegger chama de "pensamento calculante" é justamente a "pobreza de pensamento". Quando só nos atemos à utilidade e à instrumentalidade, ficamos imersos na causalidade. Com isso, ficamos impossibilitados de "meditar" (pensar qualquer questão em profundidade). Essa é a discussão principal do post. O resto é mero adorno, que a academia tanto…

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