Saúde Mental: Por quem, e para quem?
- Victor Portavales Silva
- 5 de fev. de 2023
- 5 min de leitura
No dia 31 de janeiro de 2023 foi realizado o I Seminário Janeiro Branco UERJ Pela Vida, que teve como tema Saúde Mental, Saúde Integral e a Garantia dos Direitos Fundamentais. Abaixo, compartilho o vídeo e o texto de abertura do evento:
Gostaria de tomar a palavra por alguns instantes na abertura deste evento histórico, para compartilhar qual foi o ponto de partida na sua organização. Para isso, preciso voltar até o dia da minha defesa de doutorado, que ocorreu em outubro do ano passado (2022). Nessa ocasião, o professor Marcus Brunhari, do departamento de Psicanálise instalado no Instituto de Psicologia da UERJ, trouxe algumas contribuições muito pertinentes a serem pensadas. Em primeiro lugar, ele questionou as campanhas do Setembro Amarelo, que tem sido capitaneadas sobretudo pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). Nessa linha, ele argumentou que grande parte das campanhas se pauta por ideais neoliberais que necessitam ser pensados e questionados. Nesse ponto, concordo com ele. A ABP e o CFM (Conselho Federal de Medicina) tem se manifestado de forma bastante questionável, e sempre a serviço de uma ideologia neoliberal. A crítica de Brunhari avançou sobre minha tese, que pensa a questão do suicídio. Em sua avaliação, faltou questionar o próprio horizonte de sentidos que é o solo e o terreno em que ocorrem suicídios na atualidade. Ele disse: “Seu trabalho escolheu um caminho, e foi um caminho estético”. Com isso, sua pertinente colocação se impôs para mim como uma provocação e um convite, a pensar questões que não foram tratadas no texto da tese.
Acho que o professor Brunhari deve ficar feliz com os resultados de sua crítica, pois ela mobilizou a organização deste evento. No entanto, talvez ele não contasse com o fato de que eu adoro ser questionado, mas também sou bastante teimoso. Então insisto em perverter suas próprias críticas e insistir na estética. Minha fala, na abertura desse evento, é uma fala estética. Estou aqui de bermuda, macacão e boné, talvez chocando algumas pessoas, talvez agradando outras, mas certamente passando uma mensagem que se constitui de modo estético. Mas é a partir da estética que questiono a ideologia apontada por ele.
Explico... Eu poderia estar aqui hoje vestindo um belo terno, completamente alinhado, passando a imagem de sucesso que os palestrantes costumam passar. Em resumo, eu poderia ter vindo até aqui com um cosplay de Cortella, de Karnal, ou do odioso Pondé. Mas optei por vir com essas vestimentas, de modo frio e calculado.
Na bíblia, em Jó 29:14, lemos “Eu me vestia de dignidade; minha roupa era a retidão e a justiça meu manto e meu turbante.” E assim eu fiz também. A bermuda exibe minha deficiência, e com isso gera representatividade. Passa a ideia, tão incomum, de que uma pessoa com deficiência pode ocupar lugares de poder e autoridade. O macacão representa uma das categorias profissionais a que pertenço. Sabe, eu fiz a minha graduação, meu mestrado, meu doutorado, e agora realizo meu pós-doutorado trabalhando em uma atividade que nada tem a ver com a Psicologia. E se fiz e faço isso, é porque necessito desse sustento para minha própria sobrevivência, e mais que isso, só pude fazer tudo isso porque a UERJ é uma universidade acessível a inclusiva. Certamente eu teria muita dificuldade em percorrer essa trajetória, iniciada 2009, na UFRJ ou na UFF, para falar de outras Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. Elas não possuem um curso noturno, como a UERJ. Elas tem uma postura elitista que não está presente em uma Universidade popular como a UERJ. O boné, por sua vez, traz o símbolo do MST, e, com isso, levanta à tona a discussão sobre a saúde no campo, sobre a distribuição de terras. Um problema que não foi resolvido até hoje... Desde a invasão portuguesa as terras brasileiras estiveram nas mãos de latifundiários. E tudo isso tem a ver com saúde.
Eu poderia ressaltar minha identidade PcD, mas em verdade o que pretendo aqui hoje é retomar um pequeno trecho do discurso de Sílvio Almeida, apenas para dizer: “Trabalhadores e Trabalhadoras, nós existimos e somos valiosos”. Coloco-me hoje aqui como trabalhador, e também como PcD. E se o faço é porque acredito que a categoria do trabalho é a única capaz de abarcar a todos nós. Eu duvido muito que haja um burguês aqui hoje assistindo à minha palestra. Os verdadeiros burgueses não habitam nossos espaços, e nenhum de nós será capaz de gerar um rombo de 40 Bilhões em vida. Sendo assim, não importa se você é empresário ou contratado, se anda de celta ou amarok. Se veste nike ou padra. Todos e todas nós somos trabalhadores e trabalhadoras. E, como tais, devemos sim conhecer as diferenças identitárias de PcDs, mulheres, LGBTQUIA+, pessoas pretas, e tantas outras categorias identitárias. Mas todas essas pautas devem servir para nos unir em meio à diferença, e não nos segregar.
Então se eu estou aqui, proferindo uma fala que eu considero foda. Na moral, eu faço isso usando gírias e palavrões de propósito, porra. Eu faço isso porque o meu discurso também tem uma dimensão estética que é justamente passar a ideia de que essa linguagem pode ser aceita na academia, de que é possível uma pessoa da periferia, da quebrada, ocupar a posição que ocupo aqui hoje. Eu nasci em uma favela, eu só estudei em escola particular durante a infância porque meus pais queriam muito isso, e eu consegui uma bolsa integral por conta do meu desempenho na escola. E se conto isso não é pra me coadunar a um discurso de meritocracia. Não considero meu trajeto mérito meu. Houve esforço meu e de muitos, mas também houve um bocado de sorte. Porque nem todos os que se esforçam chegam até aqui.
Mas tudo isso serve de representatividade e inspiração, serve para apontar a possibilidade de estar aqui, para aqueles e aquelas que querem seguir esse caminho. E não considero esse caminho o único, mas é esse o exemplo que tenho a compartilhar. Então toda a minha fala é uma fala estética, mas que também rompe com o discurso neoliberal. Eu escolho estar aqui representando tudo aquilo que fica obscurecido pelo discurso neoliberal. Não estou aqui por mérito, não estou aqui vestindo um terno para passar a imagem de sucesso. Mesmo porque tenho profundo ódio a esse tipo de vestimenta. A meu ver, ela simboliza a identificação do oprimido com o opressor. Ela é herdeira do tipo de vestimenta que fazia com que apenas algumas pessoas pudessem percorrer a então Avenida Central, hoje Rio Branco. Para quem não sabe, já houve um código de vestimenta que servia como mecanismo de exclusão das camadas populares no próprio espaço público. Quando utilizamos essas vestimentas estamos passando pra frente essa tradição, e esse mecanismo de exclusão.
Eu escolho quebrar o rito e a tradição, porque o apego à tradição se manifesta dessa forma aqui:

Em uma coluna social do dia 4 de janeiro no jornal O Estado de Minas, Anna Marina, questiona a quebra de rito e de tradição na posse de Lula. Ela então relata como ficou incomodada com a presença das pessoas e do cachorro na subida da rampa. Nas palavras dela “essa gente me causou uma péssima impressão”. E então ela diz de forma ingênua e aberta que tudo bem existirem indígenas, pessoas pretas e PcDs (a quem ela se refere como estropiados), mas colocar isso assim na nossa cara seria um abuso. Então se a quebra de rito e de tradição gera incômodo eu estou aqui para incomodar, e muito. O que mais quero é incomodar toda gente preconceituosa e apegada ao passado, porque essa ideologia tem tudo a ver com adoecimento, sobretudo no campo da saúde mental.
Então eu abro o evento falando do que mobilizou sua organização. Nesse momento eu dou a palavra à Ana Feijoo, e ajo como o Mister M. Eu vou deixar a mágica acontecer, para só no final explicá-la. O que posso adiantar é que todas as palestras foram pensadas cuidadosamente em prol de uma mensagem, que só apresentarei no momento do encerramento. Então que vocês possam observar e se maravilhar com essa mágica. No final eu tentarei quebra-la, explicitando os mecanismos que guiaram meu pensamento no momento da organização das mesas.
Um bom evento a todos, obrigado!




1) Bem interessante a tripla provocação do vestuário... 2) Quanto aos "três pensadores", se não me engano, só um deles adotou modelito exótico (barba rabínica, oclinhos redondos, colete, paletó sem gravata, tênis All-Star); quanto aos dois outros: - um soa como clone do saudoso Simon Wajntraub e se destaca pelo vazio (o primeiro às vezes chuta bem), - e o melhor deles (diria) se comporta normalmente, até destoa. 3) "... aquele e aquelas..." - Como a língua da palestra é (parece ser) português, explicitar redundantemente o feminino, além do coletivo que já é - (naquela língua), de dois gêneros, pense bem: é uma modalidade de novilíngua, apud Orwell. 4) Não precisa ter ódio da calça e paletó... é roupa bem pratica quando se está viajando, pois tem muitos bolsos…