Resenha Fenô: Serial Experiments Lain - A Solidão em um Mundo Conectado
- Victor Portavales Silva
- 15 de set. de 2025
- 4 min de leitura

O que te define como você? Seu corpo físico? Suas memórias? Ou a sua presença nas redes sociais, que muitas vezes é mais elaborada e planejada do que a sua vida real? Lançado no final dos anos 90, o anime Serial Experiments Lain é uma obra-prima que transcendeu sua época e continua a desafiar a nossa compreensão sobre a identidade em um mundo cada vez mais digital. Mas, para além da ficção científica e do visual perturbador, a jornada de Lain Iwakura é um estudo de caso fascinante sobre as angústias da vida moderna, que ecoam os princípios da psicologia fenomenológico-existencial. Ao explorar temas como a liberdade, a angústia e a busca por significado, o anime nos força a confrontar as verdades incômodas sobre a nossa própria existência.
Esse é um anime que marcou minha adolescência. Lembro de, aos 13 anos, ter comprado um DVD (Os mais novos devem desconhecer esse artefato da antiguidade) com todos os episódios da série. Eu assistia e reassistia o anime durante as minhas madrugadas insones. Veremos a seguir como podemos articular um anime tão antigo com temas tão atuais.
O Vazio Existencial e a Busca por Sentido
A psicologia existencial, em sua essência, lida com as grandes perguntas da vida humana. Ela argumenta que nascemos em um mundo sem um propósito inerente, e a nossa tarefa é criar o nosso próprio significado. A apatia inicial de Lain, seu isolamento social e a ausência de conexões genuínas com as pessoas ao seu redor representam um vazio existencial profundo. Ela não se encaixa, não sente que pertence. Esse sentimento de falta de propósito, que muitos de nós experienciamos em diferentes graus, é o que a impulsiona a mergulhar na Wired, a internet de seu universo, em busca de respostas e, talvez, de uma identidade mais autêntica. A internet, nesse contexto, surge como uma terra de infinitas possibilidades, um escape para a realidade mundana e insatisfatória. É um espelho do nosso próprio comportamento, onde buscamos validação e pertencimento em plataformas virtuais que prometem conexões, mas que, muitas vezes, nos deixam ainda mais sozinhos.
A Dicotomia entre o Real e o Virtual
A busca de Lain na Wired não é apenas por informações, mas pela chance de ser alguém diferente. A internet oferece a ela a liberdade de criar uma persona ou avatar, de transcender sua existência física e de se conectar com outros de uma forma que ela não consegue no "mundo real". Essa dicotomia entre o corpo físico e a presença digital é um dos pilares da narrativa, levantando questões profundas sobre a ontologia da identidade. A linha que separa o que é real e o que é virtual se torna tão tênue que a própria Lain começa a questionar onde reside sua "verdadeira" essência: em sua carne e osso, ou nos dados que fluem pela rede? Essa confusão é familiar para qualquer um que já se sentiu mais confortável ou mais "ele mesmo" online do que pessoalmente. O anime sugere que essa dissociação pode ser perigosa, diluindo o eu e levando a uma crise de identidade onde o indivíduo não consegue mais distinguir quem ele realmente é, nem em que mundo ele vive.
A Angústia da Liberdade e a Fratura da Identidade
Com a capacidade de ser qualquer um, vem a angústia da liberdade. Na filosofia existencial, a liberdade de escolha é vista como um fardo, pois com ela vem a total responsabilidade por nossas vidas e por nossas escolhas. Lain se fragmenta em múltiplas identidades – uma estudante tímida, uma hacker implacável, uma entidade onisciente na rede. Cada uma dessas personas é uma manifestação das infinitas possibilidades que a Wired oferece. Essa liberdade ilimitada se torna um peso insuportável, pois a obriga a responder à pergunta mais difícil de todas: "Quem sou eu, de fato?". A multiplicidade de eus virtuais de Lain reflete o nosso próprio comportamento online, onde criamos perfis diferentes para diferentes audiências, e nos perdemos na tentativa de agradar a todos. O anime nos alerta para o perigo dessa fragmentação, que pode nos levar a perder o senso de um eu coeso e autêntico, nos deixando vulneráveis e com uma sensação de vazio ainda maior.
A Mortalidade e a Promessa da Imortalidade Digital
Outro tema existencial explorado no anime é a morte. A morte de sua amiga Chisa, que supostamente cometeu suicídio e teve sua consciência transferida para a Wired, leva Lain a confrontar a fragilidade da vida e o que acontece com a consciência após o fim. A Wired se apresenta como uma promessa de imortalidade, uma forma de transcender a mortalidade do corpo físico. No entanto, o anime sugere que essa imortalidade é uma forma de negação da própria vida, um escape da responsabilidade de viver e de criar significado no tempo limitado que temos. A busca por uma existência digital perpétua é uma manifestação do nosso medo existencial da morte. Lain, ao final, percebe que a verdadeira vida não pode ser replicada em bytes e que a imortalidade digital é uma ilusão que nos impede de abraçar a beleza e a dor da nossa condição humana.
A Aceitação da Solidão e a Construção do Significado
Ao final de sua jornada, Lain precisa confrontar todas as suas versões e decidir quem ela quer ser. Ela entende que a verdadeira conexão não reside em um mundo virtual, mas na aceitação de sua própria solidão e na coragem de criar um sentido para sua vida, mesmo sem um propósito pré-definido. A sua jornada é um lembrete poderoso de que, em um mundo cada vez mais conectado por tecnologia, a batalha mais importante é interna. O verdadeiro significado de nossa existência não está em ser visto ou em ter uma infinidade de "amigos" virtuais, mas em encarar nossa solidão e construir a nossa própria verdade, dia após dia. A história de Lain nos convida a desconectar, a nos reconectar com nós mesmos e a encontrar a paz na aceitação de que a nossa vida, com toda a sua imperfeição e finitude, é nossa, e somente nossa. É na solidão que encontramos a liberdade de ser, e na aceitação dessa liberdade que encontramos a coragem de viver.
E para você, o que Serial Experiments Lain significa? Ele mudou a forma como você enxerga a internet ou a sua própria identidade?
