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Resenha Fenô: Ex-Machina (2015)

Atualizado: 26 de dez. de 2022


Você também pode ouvir o conteúdo dessa postagem, se preferir:

Ex-Machina, filme de 2015, com roteiro de Alex Garland, é uma distopia absolutamente realista e sombria. A velha temática da tecnologia devorando o homem é revista a partir de elementos da nossa realidade concreta atual. Discussões sobre inteligência artificial, big data, machine learning e ética digital dão o ensejo para pensar o humano a partir do maquínico.


No filme, um programador, funcionário de uma big tech chamada Blue Book (Uma mistura de Google e Facebook), é selecionado para visitar o diretor da empresa e participar de um experimento social. Nesse experimento, ele deve interagir com uma androide e elaborar estratégias para conduzir um Teste de Turing.


O Teste de Turing, ou Jogo da Imitação, foi um modelo de teste proposto por Alan Turing, um dos pioneiros da computação moderna. Nesse modelo, um humano deve interagir com um sistema fornecendo dados de entrada, e avaliando as respostas dadas pela máquina. O objetivo é determinar se é possível distinguir as respostas do sistema, pensando sobre se são similares ou distintas das que seriam fornecidas por um humano. Caso não seja possível realizar essa distinção, então a máquina poderia misturar-se facilmente aos humanos, podendo até mesmo ser considerada um deles.


No decorrer do filme, o programador começa a se surpreender com o comportamento de seu chefe, que trata as máquinas, de aparência humana, como objetos descartáveis e manipuláveis. Como esse mesmo programador desenvolve uma afeição pela androide com a qual interage, ele passa a ter uma série de conflitos com o diretor da empresa.


Toda essa ambientação serve de pano de fundo para uma discussão muito mais profunda... O filme pode ser pensado como uma grande metáfora para a discussão da relação do humano com a técnica. Em uma conferência de 1953, intitulada A Questão da Técnica, o filósofo alemão Martin Heidegger refletiu sobre os problemas concernentes à técnica e à tecnologia.


Nessa conferência, ele aponta o grande engano do pensamento moderno: as caracterizações instrumental e antropológica da técnica. Pela via instrumental, ela é vista como um mero meio para um fim, algo que pode ser utilizado a partir de um critério de utilidade. Pela via antropológica, ela seria algo a serviço do homem, algo disponível para utilização.


Para o filósofo, esse é um grande engano, porque a técnica já não é mais um meio para um fim, mas um fim em si mesmo, e já não é o homem quem controla a técnicas, mas a técnica é que controla o homem. Basta pensar nesse meio das redes sociais, que é o mote do filme Ex-Machina. Pensamos ter liberdade para postar e interagir, mas a verdade é que nosso comportamento é controlado a manipulado à despeito de nossa vontade.


Mas Heidegger encerra a conferência sobre a técnica com uma citação de Holderlin que é absolutamente simbólica. Os versos do poeta dizem: “Mas onde há perigo, cresce também a salvação. ... Poeticamente habita o homem sobre esta terra.” De modo que, embora sejamos devorados e engolidos pela técnica, é justamente na constatação dessa situação que se estabelece o fundamento para qualquer tipo de saída ou salvação. A saída é compreender a técnica para além das caracterizações instrumental e antropológica.


Sendo assim, é preciso entender a técnica como o próprio horizonte hermenêutico em que estamos inseridos, e, que, portanto, nosso comportamento é ditado e orientado, na maior parte das vezes, pelos critérios técnicos, de utilidade, disponibilidade e descarte.


Ao longo do filme, observamos o horror ensejado pela tecnologia que desenvolve vontade própria e busca seus próprios valores. Não vou descrever as cenas e o enredo para não dar spoilers, mas quem já assistiu ao filme vai compreender do que estou falando.


A discussão da técnica, em Heidegger, também está relacionada com a crise de valores e o niilismo apontado por Nietzsche. Para Nietzsche, o pensamento moderno perdeu suas bases e fundamentos, e encontra-se completamente desterrado e desnorteado. Pela ausência dos valores da metafísica cristã, seria preciso o exercício da vontade de poder na criação de valores próprios, sintetizados no conceito do Übermensch (O para-além-do-homem).


Contudo, o que Nietzsche parece não ter percebido é que os valores já foram substituídos. No lugar da Igreja, uma tecnologia carente de ética e uma ciência ausente de rigor parecem determinar todo e qualquer fundamento para a ação humana. A ideia do humano como uma pura racionalidade é o que vigora e impera no pensamento moderno.


Mas... No campo da Psicologia, por exemplo, Freud é costuma ser creditado como um dos primeiros a pensar o humano para além da racionalidade, apontando o irracional no homem. A fenomenologia rejeita a metapsicologia freudiana, por conta tanto do subjetivismo quanto da possibilidade um certo determinismo construído à partir da teoria da economia pulsional.


Mas é possível pensar o homem para além da racionalidade mesmo assim. Heidegger foi um dos autores a tematizar a afetivididade no campo da existência humana, apontando a influência dos afetos no comportamentos como um elemento importante, que muitas vezes sobrepuja a própria racionalidade.


Nesse diálogo entre Heidegger, Nietzsche e Alex Garland (Roteirista de Ex-Machina), podemos pensar os horrores de uma ciência e de uma técnica carente de afetos. Porque se tomarmos a racionalidade como fundamento único para nossa ação, então já não será mais possível nos diferenciarmos da máquina. O que restaria seria a mais pura e singela psicopatia, como na androide, ou também do diretor, que busca apenas a realização de seus desejos, a despeito de quaisquer elementos éticos. Na ausência de fundamentos, o risco maior é entificarmos nossa própria existência, tomando-nos por aquilo que não somos, esquecendo nosso caráter de ser.


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