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Resenha fenô #2: Conselheiro do Crime (2013)

Atualizado: 26 de dez. de 2022

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Conselheiro do crime (The Counselor) é um daqueles filmes que, de início, parecem óbvios em seu tipo: elenco estelar com história sobre tráfico de drogas na fronteira do México com os Estados Unidos. Espera-se muita ação, explosões e grandes esquemas de corrupção. Mas o que o filme surpreendentemente entrega não é bem isso. Os profundos diálogos são inúmeros, as cenas de ação são raras e pode ficar a impressão de que o filme "prometeu, mas não cumpriu" no quesito filme de ação . Essa expectativa inicial que a própria formatação excessivamente comercial do filme fomenta não consegue descobrir camadas no interior do enredo. Pode ser difícil sair da impressão inicial de que se trata de um filme apenas comercial, isso é ainda mais difícil de acontecer quando se dispõe de grandes estrelas do cinema para desenvolver uma narrativa, no fundo, bastante densa e interessante. Isso se confirma pelo fato de o filme ter passado sem muito alarde pelos cinemas, ficando com a marca de blockbuster fracassado.

O roteirista do filme é Cormac McCarthy, o mesmo do excelente Onde os fracos não tem vez. Conselheiro do crime é um filme densamente filosófico e com questões que vão muito além dos problemas específicos da fronteira entre México e Estado Unidos. Esse contexto é muito mais um cenário para que questões humanas e existenciais ganhem corpo de forma crua e visceral.


Michael Fassbender interpreta um advogado (nomeado ao longo do filme apenas como "conselheiro") de gosto refinado e de ambição ingênua, que faz de seu gosto pela sofisticação e do amor pela sua companheira (interpretada por Penélope Cruz) o centro de seus interesses. Sua vida é como um sonho acordado: é dono de carros deslumbrantes, de roupas finíssimas, de um apartamento sofisticado, e de um relacionamento exemplar. Tudo caminha de modo perfeito, até que o advogado adere a uma trama que envolve o transporte de cocaína do México para os EUA, em uma negociata que envolve cifras milionárias. A partir desse momento o filme acompanha seu despertar. Todo o glamour parece se esvair e um choque de realidade o atinge como um soco no estômago. Seu plano dá errado, e ao se descobrir em apuros reconhece o terreno frágil no qual seu sucesso estava plantado. Se vai o sorriso charmoso de canto de boca e entram em cena os olhos arregalados.


Durante o seu despertar, mundos novos são revelados e decisões fundamentais são revistas. Tudo, que até então era doce, se torna amargo. Esse novo ambiente revelado por sua derrocada é um mundo onde não há espaço para gesto: ou você mata ou você morre. Sofisticação e elegância em um mundo como esse é apenas uma fina camada de verniz que ao primeiro sinal de desestabilização se vai com a mesma rapidez com que retorna quando tudo parece normal. O conselheiro acreditou no acabamento refinado de um mundo, em sua essência, animal.


Mundos distintos são habitados por seres de diferentes tipos. O conselheiro e sua esposa pareciam estagiários em um ambiente inóspito que não admite ensaio. Em determinado momento da trama uma personagem informa ao conselheiro que não se pode viver num mundo no qual não se cabe: quem não souber onde pisa, quem não quiser fazer o jogo da caça/caçador, que lide com as consequências. Nesse momento, aos prantos, o conselheiro desperta. É esse o exemplo que ao longo de toda a película o conselheiro não soube seguir. Cego por sua ingenuidade e ambição, não soube detectar os olhares que diziam “mal sabe ele…”. O filme sustenta de maneira firme através de suas personagens que o lugar da inocência é aquele que precede o da queda: toda ação tem consequências e as escolhas não são feitas nas encruzilhadas, são feitas já no início da jornada.


É justamente esse processo que o conselheiro perdeu, esteve ausente nos momentos de suas decisões fundamentais e, a partir de determinado ponto, se viu forçado a simplesmente aceitar sua posição no mundo real, e não no mundo da sua frágil sofisticação. Curiosamente ou não, o conselheiro é quem menos sabe a respeito do mundo que ele mesmo habita, seus conselhos não servem mais para aquele lugar. O filme mostra de forma crua e pesada que a experiência é um farol voltado para trás, e em alguns casos isso quer dizer a diferença entre tudo ou nada. No fim das contas, fica a impressão de que o filme trabalha com a tese central de que, em um mundo de feras famintas, todo castigo para bobo é pouco. Conselheiro do crime é um filme que não titubeia na hora de fazer essa denúncia e serve de base para lições existenciais fundamentais, para quem tiver olhos para ver.


 
 
 

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