Por uma Epoché fática do cotidiano
- Yan Sousa de Almeida

- 16 de jan. de 2023
- 4 min de leitura

O esforço do Heidegger é esse: o de trazer à memória essa relação da questão do ser com o tempo. A noção de que o ser, seu sentido e sua relação com as coisas ou mundo se dá de maneira contemporânea – contemporâneo na noção grega do termo σύγχρονος, que apresenta a ideia de “sincronia”, “ao mesmo tempo”, “no mesmo tempo” ou “na mesma frequência”. Ou seja, no sentido de: com o tempo, em conjunto, conjugado – assim como a terceira margem de Guimarães Rosa. Daí a necessidade da retomada de algo mais originário, não no sentido de algo anterior cronologicamente, mas algo que não está entulhado pelo esquecimento. Peço, agora, liberdade ao leitor para tentar explicar o que quero dizer com isso. O pedido de liberdade aparece, pois, para explicar que eu vou ter que contar uma história – mais especificamente, a história da distância entre os trilhos do trem.
Eu início essa história dizendo que, para me companhar nessa história, o leitor terá que fazer uma suspensão. Suspender as coisas é exercer uma atitude antinatural (HUSSERL, 1900/2012). Tal atitude se constitui como uma postura que coloca as determinações entre parênteses – Husserl era matemático, logo, a analogia de colocar termos em parêntese era algo próximo dele – e estranhar determinações de sentido da nossa época. Estranhar as coisas é basicamente se comportar como aquelas crianças chatas, que perguntam sobre tudo. Na verdade, o que essas crianças estão fazendo é colocando em questão – entre parênteses. O que elas estão buscando fundamentalmente, é saber de onde vêm as ideias que sustentam o modo como nós pensamos as coisas atualmente. O que eu quero dizer é que o modo como você se relaciona com as coisas, até mesmo o modo que você pensa, não é aprioristicamente dado. Ele está localizado em um tempo, faz parte de uma história. E isso afeta diretamente a sua vida, por exemplo:
Como morador de Nilópolis que realizou a sua graduação na UERJ, tive meus dilemas com o meu único meio de transporte possivel, os famigerados trens da SuperVia. Um dia esses trens estavam demorando mais do que o usual. Nessa espera, fiquei entediado. Ao começar a sentir o tédio dominar o meu ser, logo tirei o celular do bolso. Quando olhei para a tela do telefone, meu desespero aumentou, pois a bateria do celular havia acabado. Meu tédio não podia ser suprimido. Acontece que alguns empregados da SuperVia estavam trabalhando nos trilhos. Tomado pelo tédio, olhei intrigado para os trilhos, mais especificamente para a distância que separa os dois trilhos. Quase hipnotizado, me aproximei de um dos trabalhadores, e fiz o que qualquer criança chata faria: perguntei ao funcionário da Supervia, trabalhando acompanhado pelo sol do Rio de Janeiro, qual era o tamanho da distância entre os trilhos do trem.
Como se eu tivesse ofendendo-o em uma língua a qual ele não era fluente, ele me perguntou “O-QUE???” Eu, sem perceber a estranheza do meu ato, repeti a pergunta “Você sabe qual é a distância que separa os trilhos?” Suado, ele colocou suas ferramentas no chão e, adotando uma postura de resignação, me perguntou “Por que você quer saber disso?” Eu encolhi os ombros, joguei a mão para o alto, como que afastando qualquer pragmatismo do ar, e respondi “Sei lá, só curiosidade mesmo.” Um longo silêncio penetrou a atmosfera, e só não foi tão penetrante quanto o olhar confuso do trabalhador que me disse em monotom “Mais ou menos 143 centímetros. 143,5 centímetros.”
Talvez o leitor concorde comigo, mas eu achei esse número muito estranho. Porque um número quebrado e não redondo? O funcionário me disse que era para acomodar as rodas do vagão. Numa discussão filosófica sobre apriorismos, indaguei que as rodas provavelmente têm essa medida por causa dos trilhos, não? Meu companheiro de diálogo suspirou e disse “Tenho que voltar a trabalhar.” Deu as costas para mim e para as minhas questões.
Obviamente que, quando cheguei em casa, primeiramente, botei o meu celular para carregar, e passei algumas horas pesquisando sobre a distância entre os trilhos de trens. Para minha sorte, alguém também ficou entediado o suficiente para buscar a resposta da minha questão antes de mim. Aqui reproduzo meu diálogo interno enquanto lia:
Quando começaram a construir os primeiros vagões de trem, usaram as mesmas ferramentas utilizadas na construção de carruagens. Ok. Mas por que as carruagens tinham essa medida? Porque as antigas estradas eram feitas nessa medida. Ok. Mas por que as antigas estradas eram feitas nessa medida? Foram os romanos que estabeleceram essa medida. Ok. Mas por que os romanos estabeleceram essa medida? Porque as carruagens de guerra eram conduzidas por dois cavalos e quando esses animais eram colocados lado a lado, eles ocupavam, em média, esse espaço, 143,5 centímetros. A distância do trilho dos trens que usamos hoje em dia foi, de certa forma, determinada pelos cavalos romanos.
Eu queria que o leitor parasse por um segundo e ruminasse a respeito das implicações da informação que acabou de receber. Ajudo-o nesse processo complementando: os engenheiros da NASA queriam tanques de combustíveis maiores, porém não puderam, pois o vagão do trem sustentado pelos trilhos e os 143,5 centímetros que os separam não era capaz de transportar um tanque de maior capacidade. O que estou dizendo é que os romanos e os seus cavalos impediram que os engenheiros e astronautas da NASA – essas pessoas que queriam viajar no espaço cideral, lugar que nem tem estradas, ou trilhos – tivessem um tanque de combustível maior. A implicação que estou apontando aqui é que a tradição, seja ela filosófica, científica, religiosa etc articula de alguma forma a nossa vida e a relação com as coisas e conosco; mesmo hoje. Entender contemporâneo na noção grega do termo σύγχρονος, é também tentar acompanhar os trilhos dessa minha estória, e também os da História. Nisso está o intento de trazer à memória o caráter temporal do ser.




A bitola ter medida que remonta ao Império Romano é só uma lenda, mesmo porque a exatidão (não confundir como precisão!) até o milímetro o desmentiria. Fosse qual fosse o motivo, padronização é útil, resulta em grandes economias e permite intercambiabilidade - se estiver atendendo, se não implicar em limitações (com o caso NASA, se não fosse outra lenda), não há por que alterar e sobra tempo para cuidar de outras coisas. Não era este o foco do artigo, claro; penso que ele desviou um pouquinho.