Por quê a Psicologia Baseada em Evidências NÃO é uma nova perspectiva psicológica
- Victor Portavales Silva
- 31 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2022

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Muito se tem falado sobre Psicologia baseada em evidências (PBE), e sobre práticas baseadas em evidências na redes sociais. Mas ainda há muita dúvida, entre estudantes e profissionais de Psicologia, sobre o que vem a ser essa proposta. Nesse contexto, somos bombardeados por informações de todos os lados em nossas redes sociais, e torna-se necessário separar o que é verdade e o que é enganação.
Por um lado, há uma demonização e um ressentimento em relação a essa proposta de atuação, que determina que o(a) psicólogo(a) deve atuar com base nas práticas que possuam maior grau de evidência. Isso porque, muitas vezes, a Psicologia acaba se tornando uma grande briga de torcida entre diferentes teorias e perspectivas psicológicas.
Por outro lado, há um certo charlatanismo mesmo entre aqueles que advogam pela Psicologia baseada em evidências. Algumas poucas pessoas, mal intencionadas, se aproveitam do canto de sereia que constitui o discurso científico na atualidade, para vender cursos e treinamento com a promessa de tornar estudantes e profissionais pessoas melhores terapeutas em um passe de mágica. Na verdade, qualquer promessa nesse sentido é uma enganação, seja pela via da PBE, com seu discurso cientificista, seja por práticas pseudocientíficas com apelo ao místico, como a constelação familiar e seus derivados.
No meio disso tudo, faz-se necessário separar o joio do trigo. Verificar que ensinamentos são importantes, e que mensagens devem ser ignoradas. A mensagem positiva trazida pelo debate sobre PBE é a ideia de uma formação constante, que requer atualização e estudo, e a busca por informações em bases de dados científicas.
A mensagem ruim é a de que somente essa corrente de pensamento traz contribuições à Psicologia, e de que haveriam perspectivas teóricas mais científicas ou mais efetivas que outras. Aqui no Brasil, toda e qualquer Psicologia é ciência e profissão, já que nosso código de ética determina que toda e qualquer prática deva se basear em critérios técnicos e científicos. As práticas pseudocientíficas podem ser denunciadas ao Comitê de Ética do Conselho Regional de Psicologia da localidade em que atua o mau profissional. Sendo assim, não faz muito sentido uma cruzada contra certas perspectivas teóricas, como a Psicanálise, por exemplo, em detrimento de outras. Se há artigos científicos que norteiem a prática, há ao menos algum grau de evidência de eficácia dessa prática.
Para além desse embate, que muitas vezes é político e mercadológico, há também um outro engano: A ideia de que a PBE constitui uma nova perspectiva ou corrente teórica no campo da Psicologia. Isso acontece pelo próprio modo como alguns profissionais se apresentam e se definem nas redes como “sou da Psicologia baseada em evidências”, ou “só utilizo práticas baseadas em evidências”. Ora, isso não deveria ser uma nova identidade e não deveria ser nenhuma vantagem em relação a outros profissionais, já que todo(a) psicólogo(a) com registro ativo no CRP deve atuar com base em conhecimentos científicos. A prática de pseudociências já é, por si só, um desvio e deve ser relatada ao CRP para averiguação e punição.
Para além desse ponto, é preciso destacar que a PBE não se constitui como uma nova perspectiva justamente porque ela não é uma perspectiva em si mesma. Se vocês pesquisarem um pouco mais sobre PBE, vão verificar que ela se refere a uma tentativa de dar maior rigor à prática profissional em Psicologia, e, para isso, busca delimitar quais seriam as melhores técnicas e estratégias para cada situação em específico. Em alguns contextos, a Terapia Cognitivo-Comportamental possui o maior grau de evidência. Em outros, a Terapia Comportamental Dialética (DBT), ou a Terapia de Aceitação e Compromisso.
Sendo assim, o que marca a PBE é um caráter pragmatista e utilitarista, já que baseia seu critério única e exclusivamente no resultado da aplicação de um conjunto de técnicas, sem os devidos debates éticos e epistemológicos necessários. Cada proposta terapêutica possui o que se chama de uma “teoria de base”, que determina quais são seus fundamentos. Os principais fundamentos da TCC derivam das teorias de Aaron Beck, por exemplo. Aaron Beck foi o responsável por fornecer as bases dessa prática, ao descrever seus modelos sobre a tríade cognitiva, sobre o papel das crenças centrais e pensamentos automáticos, etc. A DBT já possui como fundamento o comportamentalismo, sobretudo o comportamentalismo radical de Skinner. Com isso, se baseia em outra teoria de base, formulada por um grande conjunto de autores da tradição comportamental.
A PBE não é, portanto, uma nova teoria ou uma nova perspectiva em psicologia, porque não tem a intenção de fornecer uma “teoria de base”, que explique, por exemplo, como funciona o desenvolvimento humano ou como se constitui a personalidade. Não, ela é apenas um norteador de uma prática. Ela é uma tentativa de garantir melhores resultados na prática clínica, mas pode acabar recaindo em um ecletismo sem fundamento. Por isso, é uma grande besteira dizer “sou da PBE”. É impossível conhecer todas as teorias em profundidade, de modo que nos dedicamos ao estudo do que nos parece mais pertinente. E se uma situação em específico escapa à nossa capacidade de atuação, então seria o caso de encaminhar a pessoa para outro profissional, com uma formação adequada à situação.
Além disso, devemos considerar sempre aspectos éticos, históricos e sociais em nossa prática profissional. Ter um artigo ou um roteiro de tratamento pode ser conveniente, mas não podemos nos tornar escravos ou prisioneiros dessas determinações. Porque a melhor ferramenta, no consultório, é sempre o pensamento crítico. Mas esse não é desenvolvido facilmente, de uma hora para outra. Requer muito estudo, empenho e dedicação. Em conclusão, faço um apelo: não caia nessas armadilhas. Conhecer pequenos conjuntos de técnicas ou protocolos não te fará um(a) terapeuta melhor, apenas te trará um conjunto maior de ferramentas. Mas uma ferramenta desacompanhada da devida reflexão sobre seu uso e sua finalidade acaba sendo só isso mesmo: uma ferramenta, um meio para um fim.
E você, o que pensa sobre isso? Qual sua opinião sobre Psicologia baseada em evidências? Comente e compartilhe. E se você valoriza a ética, o compromisso social e a reflexão crítica, nos siga em todas as redes sociais. Não prometemos te tornar um(a) melhor terapeuta em um passe de mágica, mas podemos fazer boas perguntas e trazer questionamentos e análises pertinentes pautadas no pensamento crítico.




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