O que um fenomenólogo tem a aprender com Carl Rogers?
- Victor Portavales Silva
- 4 de dez. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2022

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Em termos gerais, as psicoterapias fenomenológico-existenciais utilizam intervenções ou falas muito próximas às da abordagem centrada na pessoa. Em congressos, é bastante comum a fala de que “fazemos a mesma coisa”. Contudo, isso é uma grande redução. A similaridade de modos de comunicação e intervenção não significam uma homogeneidade entre essas propostas. Pelo contrário, essas são inconciliáveis sob alguns aspectos. Explico...
Comparar os modos de atuação da fenomenologia-existencial e da ACP é como comparar duas árvores pela cor e formato de suas folhas, esquecendo-se completamente que os solos em meio aos quais estão fincadas suas raízes são completamente distintos. Assim também é em relação à psicoterapia baseada na fenomenologia-existencial em comparação à ACP: suas raízes e o solo em que estão assentadas são muito diferentes.
Sendo assim, não cabe “medi-las por seus frutos”. Os frutos, são similares, mas os fundamentos não. Rogers possui uma concepção humanista do desenvolvimento humano, partindo da noção de tendência atualizante para caracterizar a natureza humana como inerentemente boa e tendendo à expansão e crescimento pessoal. Para qualquer fenomenólogo, isso é um pressuposto que deve ser questionado. A fenomenologia não trabalha com a ideia de uma natureza humana, e por isso seus fundamentos são outros.
Todavia, Rogers era um terapeuta absolutamente perspicaz e criativo, de maneira que é possível sim conhecer e até mesmo utilizar algumas modalidades de intervenção da ACP no contexto de uma psicoterapia de perspectiva fenomenológico-existencial. Explicito minhas impressões sobre isso a seguir:
Não-diretividade
A não diretividade é uma noção que aparece já no início do percurso de Rogers, e que marca profundamente todas as propostas terapêuticas da chamada “Terceira Força em Psicologia”. Trata-se de um modo de atuação guiado pelo não-confronto e pela sutileza no modo de colocar as questões. Não-diretividade significa não tomar as decisões pelo outro. Significa devolver-lhe a liberdade.
Isso é algo bastante próximo da não de uma “preocupação libertadora” em Heidegger. Na analítica existencial exposta em Ser e Tempo, Heidegger identifica algumas modalidades do cuidado: 1) a ocupação, na lida com os entes; 2) a preocupação substitutiva e 3) a preocupação libertadora, na lida com outros existentes. O modo substitutivo da preocupação é caracterizado pela tentativa de tomar para si as tarefas do outro, entregando-lhe prontas. Quando somos diretivos na clínica, estamos, no fundo, substituindo o outro em suas próprias tarefas. Estamos decidindo pelo outro e, em certa medida, tolhendo-lhe o exercício da sua própria liberdade e autonomia. A preocupação libertadora, por outro lado, tenta devolver ao outro seu caráter de indeterminação e liberdade.
Mas há diferentes maneiras de devolver a liberdade a alguém... A não-diretividade é somente uma delas, mas com certeza a mais gentil. Além disso, a não-diretividade aproxima-se bastante da ideia de uma comunicação indireta em Kierkegaard, que visa partir de onde o outro se encontra. Isso me lembra outro ponto...
Empatia
Rogers ressaltava sobremaneira a importância do acolhimento empático e da consideração positiva incondicional. Essas são duas proposições extremamente problemáticas em termos fenomenológicos, porque possuem alguns pressupostos inquestionados. Quanto à empatia, ela pressupõe a existência de duas subjetividades, duas mentes, que possuem a capacidade de se conectar em um estado de identificação empática. Ora, se a fenomenologia-existencial visa superar qualquer subjetivismo ou psiquismo, não se pode falar em empatia.
Mas há uma noção correlata que supera a problemática do psiquismo na empatia: a ideia de afinação. Na discussão de Heidegger acerca da existência, os afetos são descritos em termos das tonalidades afetivas, que são modos específicos de lida consigo e com o mundo (a existência por inteiro). Estamos sempre afinados nesse ou naquele afeto. E é tarefa do(a) terapeuta desenvolver a capacidade de identificar e de se afinar conforme cada afeto apresentado.
Trata-se de algo distinto de uma mera empatia, pois não pressupõe similaridades entre terapeuta e a pessoa atendida, ou qualquer outro conceito como “projeção”, “identificação” ou algo do tipo. A afinação é um modo de relação em que ambos encontram-se “sintonizados” em uma mesma vibração, falando a mesma língua. Daí decorre um maior entendimento entre as partes.
Com relação à consideração positiva incondicional, temos aí um grande problema. Dizer de antemão que o terapeuta deve considerar positiva e incondicionalmente todas as características e ações da pessoa atendida é um reducionismo romântico. Em um contexto real de atendimento, limites serão estabelecidos conforme a relação se estabelece, seja por meio de acordos formais ou tácitos entre as partes. É uma ilusão acreditar que o(a) terapeuta nunca irá rechaçar algo, ou se colocar de maneira mais assertiva. O que dá o tom é sempre a situação concreta e a afinação.
Congruência
Um dos objetivos da ACP é estabelecer a chamada congruência, que consiste em uma plena correspondência em relação aos valores, pensamentos e ações. A pessoa congruente é aquela que faz o que acredita, e faz porque acredita. Na congruência, não há qualquer tipo de dissonância entre o que se pensa, o que se sente e o que se faz. Mas falar de congruência ainda é manter alguns elementos do subjetivismo e do psiquismo, como a cisão entre pensamento, emoção e ação.
Kierkegaard, no entanto, é um autor existencial que pode ser utilizado para promover uma aproximação com essa prática. No desespero humano, ele utiliza o pseudônimo Anti-Climaco para descrever a “cura” para o desespero: “orientando-se para si próprio, querendo ser ele próprio, o eu mergulha, através da sua própria transparência, até ao poder que o criou”. Sendo assim, Kierkegaard fala de “transparência” no lugar da “congruência”. Mas, com isso, estabelece um mote que prescinde de quaisquer elementos do psiquismo e do subjetivismo, já que estabelece sua descrição do estado de ausência de desespero em termos da própria existência.
Intervenções
Como se pode observar, entre a ACP e fenomenologia-existencial há diferenças e similaridades. O que eu diria é que não há problema em utilizar, no contexto de uma psicoterapia fenomenológico-existencial, intervenções como a fala espelhada, a fala elucidativa, o questionamento socrático, a explicitação dos estados emocionais, e etc. Mas deve-se sempre ter em mente que os fundamentos de atuação são os outros. Em uma época histórica marcada pelo utilitarismo, que mede tudo por seus efeitos, fica parecendo que as árvores são as mesmas porque seus frutos são similares. Ledo engano, pois o processo de fabricação do sumo é completamente distinto, de modo que o sabor pode ser outro.
Em resumo, os fundamentos são mais importantes que as intervenções. Conhecer de maneira aprofundada os fundamentos de cada perspectiva em psicologia e psicoterapia é ganhar solidez na atuação profissional, de modo que se possa atuar de maneira mais crítica, criativa e autônoma.




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