O Método Fenomenológico em Husserl e Heidegger
- Victor Portavales Silva
- 28 de ago. de 2025
- 10 min de leitura

Fala galera da fenô! Tudo bem com vocês? Sejam muito bem-vindos ao nosso bate-papo de hoje, onde a gente vai mergulhar fundo em um tema que é simplesmente fascinante: o método fenomenológico de Edmund Husserl e sua relação, por vezes conturbada, por vezes promissora, com a pesquisa em psicologia. E não é só isso, a gente vai expandir essa discussão para a fenomenologia hermenêutica de Heidegger! Preparem-se, porque a mente vai explodir com tanto conhecimento! 🚀
A grande questão que nos move aqui é: como um método filosófico super rigoroso, pensado para investigar essências e não fatos, pode ser aplicado em uma ciência empírica como a psicologia? Se liga só, porque a parada é mais complexa do que parece!
A Fenomenologia de Husserl: O Básico que Você Precisa Saber!
Primeiro, pra gente entrar na mesma sintonia, vamos entender o projeto de fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938). Pra ele, a fenomenologia não é uma ciência de realidades ou fatos, tipo a psicologia científica. Nada disso! A fenomenologia de Husserl é uma "ciência de essências" (eidéticas). O objetivo é se fixar exclusivamente no conhecimento da essência.
Tudo gira em torno do método fenomenológico e da redução do empírico ao fenomenológico. Husserl argumentava que o real, como a gente pega na experiência empírica, não pode ser o fundamento de uma pesquisa científica rigorosa, porque nunca se mostra de forma completamente evidente. Ele até mandou uma frase icônica lá na sua obra A Crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental: "Meras ciências de fatos fazem meros homens de fatos". Pensa nisso!
A grande sacada de Husserl é que o método científico tradicional, que pressupõe coisas físico-materiais com sentidos objetivos e determinações espaço-temporais, é limitado e não pode ser levado às últimas consequências de forma apodítica (absolutamente evidente). Por isso, pra ter uma compreensão fenomenológica de verdade, o empírico precisa ser reduzido fenomenologicamente. Isso significa sair do âmbito puramente empírico (real, factual) e chegar ao transcendental (irreal, eidético). É tipo dar um upgrade na sua percepção! Husserl disse que a fenomenologia "não deve ser uma doutrina das essências de fenômenos reais, mas de fenômenos transcendentalmente reduzidos".
As etapas de seu método são as seguintes:
1) Redução Fenomenológica, também conhecida como Suspensão dos Juízos ou Epoché.
2) Redução Eidética, que realiza uma Intuição das Essências através da Variação Imaginativa.
3) Descrição dos Vetores Internos ao Fenômeno, que consiste na descrição e estabelecimento das Essências.
4) Redução Transcendental, passo adicional elaborado a partir de sua Fenomenologia Transcendental, onde a consciência se desdobra sobre si mesma. Vai além da essência, buscando o "como" a consciência constitui o sentido da experiência e do mundo.
E qual o coração disso tudo? A intencionalidade. Para Husserl, a intencionalidade é o que constitui o psíquico. Não é que a consciência seja algo com conteúdos dados autonomamente, ou que objetos existam independentemente ou como meros construtos mentais. Que nada! A consciência se faz em sintonia direta com um espaço de imanência-transcendência, onde surge a relação entre a consciência intencional e o objeto correlato. A consciência nunca se retém em si mesma, mas se projeta para o campo dos objetos. É um fluxo incessante! Husserl pegou a ideia de intencionalidade de seu mestre Franz Brentano, mas foi além do psicologismo empírico, descrevendo a consciência como uma unidade de vivências, percepção interna e vivência intencional, sem descartar a consciência empírica, mas evidenciando sua condição transcendental.
Mas se a consciência nunca é só empírica e não pode ser acessada apenas empiricamente, como a psicologia, que lida com o empírico, se encaixa nisso?
O Desafio da Psicologia: A Abordagem de Amedeo Giorgi
Aí que entra a discussão sobre a aplicação do método de Husserl na psicologia. Muitos estudiosos, como Amedeo Giorgi, tentaram e ainda tentam usar esse método nas investigações em psicologia. Giorgi é considerado um dos principais nomes por trás das pesquisas empírico-fenomenológicas. Ele e Sousa (2010) até afirmam que a teoria da intencionalidade, sem negar o empírico, permite o estudo da consciência para além da perspectiva naturalista, elegendo o eidos (essência) como objeto de estudo válido, independente de fatos e contingências.
No entanto, a gente tem um problema aqui, meu povo! O uso do termo "empírico-fenomenológico" já levanta uma pulga atrás da orelha. Será que isso não coloca em risco o rigor que Husserl tanto buscava? Será que não modifica a essência da fenomenologia? Muitos críticos, como Gomes e Castro (2011), alertam que modelos como o empírico-fenomenológico, fenomenológico experimental e neurofenomenológico não parecem ter alcançado uma "reforma epistêmica sólida", porque acabam "naturalizando a 'lógica transcendental' e eidética husserliana", já que a psicologia moderna se baseia numa visão naturalista.
Giorgi (2006) mesmo ressalta a necessidade de um estudo aprofundado de Husserl para usar o método. Ele aponta três procedimentos metodológicos cruciais: 1) adotar uma atitude fenomenológica (suspensão/epoché de todo posicionamento ontológico-epistemológico); 2) encontrar a instância do fenômeno a ser estudado; e 3) usar a variação livre da imaginação para reconduzir o fenômeno ao campo intencional e alcançar sua essência, descrevendo-a. Ele também menciona a generalização, que pode ser alcançada com a redução eidética e a variação imaginativa.
Contudo, a grande questão é: como aliar a fenomenologia ao empirismo psicológico sem cair numa distorção? Giorgi tenta solucionar o problema do empírico pela redução fenomenológica-psicológica. Husserl (1954/2012) considerava essa redução "propícia para as investigações em ciências do espírito (humanas), especificamente, para a psicologia, desde que desconsideremos o passo metodológico subsequente, ou seja, da redução transcendental". Ou seja, Giorgi para antes do Husserl chegar na transcendental!
A crítica é pesada, galera! Husserl, lá nas Investigações Lógicas, até chamou a psicologia de "descritiva" e disse que a fenomenologia era uma psicologia por tratar das vivências. MAS, ele corrigiu isso nas edições seguintes e em Ideias I, afirmando que a fenomenologia não é uma psicologia, porque é uma ciência das essências, não dos fatos. Pra Husserl (1952/2000), a "ciência empírica investiga a existência; a eidética, a essência". A noção de redução fenomenológica de Husserl refere-se à saída do empírico para o eidético-transcendental/fenomenológico, o que ele depois chamou de suspensão de todos os pressupostos "hipostasiantes". Isso inviabiliza a prática direta da fenomenologia pura na psicologia.
A proposta de Giorgi, ao se fixar na redução fenomenológico-psicológica sem atingir a transcendental, parece manter a investigação num âmbito naturalizante e "coisificante". Ela se detém no "significado da experiência", sem ir à "vivência pura" tal como Husserl a concebia, que é uma estrutura irreal, jamais encontrada na realidade empírica.
A Verdadeira Psicologia Fenomenológica de Husserl
Então, qual é a saída? A solução mais coerente, pra resolver essa confusão, não é a psicologia empírico-fenomenológica do Giorgi, mas sim a psicologia fenomenológica que o próprio Husserl (1925/2001) sugeriu. Essa, sim, seria a "autêntica ciência eidética" pra investigar o psicológico a partir da fenomenologia.
Segundo Goto (2007), a psicologia fenomenológica de Husserl é uma psicologia "radical", totalmente diferente das empíricas e experimentais. Ela se dirige genuinamente à vida psíquica em si mesma e suas estruturas, olhando pra interioridade psíquica. Ela é uma ciência a priori (não empírica), eidética (não de fatos), com caráter intuitivo e de descrição pura das vivências psíquicas. É uma ciência das universalidades das vivências psíquicas, das essências universais do psiquismo.
Essa psicologia exige a suspensão do empírico e da realidade espaço-temporal das vivências. O psicólogo, seguindo Husserl, deve adotar a redução fenomenológico-psicológica (que é a redução eidética), pra se desvencilhar da orientação natural-científica e da "atitude natural". Só assim ele acessa a "vida anímica pura". Husserl via essa psicologia como uma disciplina que fundamenta a psicologia empírica, sendo uma propedêutica (uma preparação) à fenomenologia transcendental.
Os momentos imprescindíveis para uma investigação psicológica verdadeiramente fenomenológica, segundo os estudos, seriam: a redução eidético-fenomenológica, a descrição dos vetores internos ao fenômeno psíquico, e a explicitação/descrição das vivências psíquicas. A vivência para Husserl é essa estrutura irreal, sem materialidade, que aparece no campo de imanência da consciência.
A Virada Hermenêutica: Heidegger e o Metà-hodós
Mas a nossa jornada não para por aqui! Agora, vamos dar um pulo pra um outro nível, com a contribuição de Martin Heidegger (1889-1976), um dos maiores discípulos (e críticos!) de Husserl. Ele trouxe uma sacada que muda o jogo: a perspectiva hermenêutica.
Heidegger nos convida a repensar o próprio conceito de método, ou "metà-hodós". Sabe o que significa metà-hodós? "De acordo com" ou "junto de" o caminho, onde "o caminho se faz ao caminhar". Isso é totalmente diferente da ideia moderna de método, que é tipo um roteiro rígido e pré-definido pra alcançar certezas absolutas e controle total. Heidegger nos lembra que os gregos antigos, como Sócrates, já entendiam o metà-hodós como um "pensar que deixa aparecer o velado justamente quando se retira".
Heidegger se apropriou da máxima husserliana "às coisas elas mesmas", mas foi além. Pra ele, a fenomenologia é um método que não foca na quididade (o "quê") dos objetos, mas no seu modo (o "como"). Mas o mais louco é que ele adiciona a circularidade hermenêutica. Pra Heidegger, o ser-em sempre já compreende. Ou seja, toda compreensão já tem uma visão prévia, uma posição, um entendimento. A gente não chega "neutro" nas coisas; a gente já está inserido num horizonte histórico de sentidos.
Por isso, o método de Heidegger é a fenomenologia hermenêutica. Ele radicalizou a noção de intencionalidade de Husserl, abandonando a categoria da "consciência" e focando no Dasein (ser-aí). O Dasein é a estrutura mais original da intencionalidade, o espaço onde a existência se mostra. Pra Heidegger, o ser é fenômeno no sentido de que "mostra-se, portanto, ocultando-se". Ele criticava Husserl por permanecer numa "fenomenologia da consciência", impedindo uma visão clara da hermenêutica do Dasein.
Heidegger usou a "destruição fenomenológica" da história da ontologia (e da ideia de subjetividade) pra desvelar o que estava velado. O método dele opera com o binômio "velamento-desvelamento". Ele até aponta três dificuldades metodológicas: a linguagem (a linguagem originária se perde na conceitual), a empatia (não pode ser produzida por vontade, é situacional) e a transposição (limitada, porque não conhecemos o mundo circundante original).
A Psicologia e a Fenomenologia Hermenêutica: Um Novo Caminho?
Agora, a cereja do bolo: como a psicologia pode se apropriar dessa tal fenomenologia hermenêutica? A psicologia tem uma longa história de debates sobre sua identidade e método. Filósofos como Kant e Comte já questionavam se a psicologia poderia ser uma ciência, dada a natureza de seu "objeto" (a alma, o psiquismo), que seria inacessível ou redundante. A crise da filosofia da subjetividade no século XIX, com a dicotomia sujeito-objeto, só piorou a situação.
A proposta aqui é radical: pra psicologia abraçar o metà-hodós, ela precisa abandonar a necessidade ilusória de operar com um "objeto" fixo, posicionado e substancializado. É preciso ir além da dicotomia sujeito-objeto que gerou a crise. A psicologia deveria, então, pensar nos "campos intencionais" que não têm determinação atemporal nem substancialidade.
Seguindo a trilha de Heidegger, a psicologia pode investigar fenômenos considerando os "campos intencionais historicamente constituídos". Em vez de buscar "objetividades categoriais", ela deve partir de "indicativos formais". Isso significa que o sentido só ganha materialidade na existência e na história, sendo sempre "epocal" (ligado a uma época). O que a psicologia investigaria, então? A "existência em seu mistério e incontornabilidade".
Pra fazer isso na prática, Feijoo propõe quatro procedimentos metodológicos, baseados em três momentos estruturais, para uma pesquisa em psicologia que siga a fenomenologia hermenêutica:
1) Revisão narrativa da literatura: Localizar, analisar, sintetizar e interpretar investigações críticas sobre como a psicologia e as ciências humanas pensaram o fenômeno. É tipo fazer uma revisão das ideias existentes pra saber onde a gente tá pisando!
2) Investigação hermenêutica: Entender como cada época compreendeu o fenômeno. Isso evita cair na armadilha de uma "verdade única e definitiva" da perspectiva moderna, abrindo espaço pra investigar o que realmente está em jogo no fenômeno.
3) Acompanhamento fenomenológico da experiência concreta: Deixar a própria experiência falar! É recuar das interpretações comuns, subtraindo conotações que "circunscrevem o fenômeno". Depois, acompanhar os "vetores internos mobilizadores" do movimento do fenômeno pra alcançar sua dinâmica e estrutura. É ouvir o fenômeno sem preconceitos!
4) Obtenção da realização da situação histórica do fenômeno: Caracterizar a pluralidade do que está na situação, sem interpretar nada. Retornar à "vida fática" (Heidegger), ou seja, ao elemento pelo qual o fenômeno se manifesta em diferentes momentos históricos e na voz daqueles que o experienciam.
Os momentos estruturais, baseados no pensamento de Heidegger, são os seguintes:
1) Reconstrução: Etapa em que tomamos ciência e revisitamos os discursos de nosso tempo acerca do fenômeno estudado, sejam eles advindos da ciência ou do senso-comum.
2) Destruição: Etapa de questionamento desses discursos, salientando seu caráter histórico com vistas a adquirir liberdade frente aos mesmos.
3) Construção: Elaboração de novas compreensões acerca do fenômeno, desvencilhadas dos discursos comuns estudados nos passos anteriores.
Conclusão: O Metà-hodós é o Caminho!
Então, pessoal, a grande mensagem é clara: o método fenomenológico de Husserl é um caminho rigoroso para investigar as essências, exigindo uma redução que leva do empírico ao transcendental. A tentativa de Giorgi de uma psicologia empírico-fenomenológica, apesar de seus esforços, parece não alcançar o rigor husserliano ao se fixar na experiência e não na vivência eidética. A verdadeira psicologia fenomenológica, pra Husserl, é uma ciência a priori e eidética que serve de fundamento para a psicologia empírica.
E aí, pra gente ir além, Heidegger nos mostra que o método é mais do que um conjunto de regras; é um metà-hodós, um caminhar junto ao fenômeno, onde o caminho se revela no processo. Sua fenomenologia hermenêutica integra a ideia de que o fenômeno se mostra (fenomenologia) e que nós sempre já o compreendemos a partir de nosso horizonte histórico (hermenêutica).
Para a psicologia, isso significa abandonar a busca por objetos fixos e substancializados e abraçar a "existência em sua incontornabilidade". É uma proposta ousada, que pode até nos tirar do "status de cientista" no sentido tradicional, mas que nos permite resistir ao imposto e abrir espaço para outras formas de pensamento.
Em resumo, é preciso ter em mente que o método, o tema e o próprio ato de pensar formam uma unidade indissociável. A gente tem que deixar o fenômeno aparecer e nos guiar, sem mediações teóricas ou metodológicas impostas.
E é isso, gente! Espero que essa viagem pelo mundo da fenomenologia e da psicologia tenha aberto a mente de vocês pra novas possibilidades. Deixem seus comentários, o que vocês acharam dessa discussão? Lembrando que esse texto foi elaborado para o segundo encontro do nosso Curso de Introdução à Psicologia Fenomenológico-Existencial. Não deixe de conhecê-lo, e entre em contato caso tenha interesse em fazer parte da lista de espera.
Referências:
Feijoo, A. M. L. C., & Mattar, C. M. (2014). A fenomenologia como método de investigação nas filosofias da existência e na psicologia. Psicologia: teoria e pesquisa, 30, 441-447.
Feijoo, A. M. L. C., & Goto, T. A. (2016). É possível a fenomenologia de Husserl como método de pesquisa em psicologia?. Psicologia: teoria e pesquisa, 32(04), e32421.
Feijoo, A. M. L. C. (2018). Metà-hodós: da fenomenologia hermenêutica à psicologia. Revista da Abordagem Gestáltica, 24(3), 329-339. https://doi.org/10.18065/RAG.2018v24n




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