O Amor Venceu o Ódio?

No início de 2023 escrevi um post sobre o modo como a Psicologia Social lidou com o Fascismo ao longo da história, e trouxe uma reflexão sobre sua insuficiência face aos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Passados quase quatro anos, tivemos eleições conturbadas em outubro de 2026. É sobre isso que desejo falar nesta postagem.
Lula ganhou as eleições por uma margem de 4 milhões de votos. Mas será mesmo que o "amor venceu o ódio"? Quase 60 milhões de eleitores votaram em um projeto autoritário de poder. Isso não é pouca coisa e não deve ser ignorado. Mesmo com inúmeras provas de que o candidato Flávio Bolsonaro é um representante dos mais asquerosos e abjetos sentimentos, houve uma escolha deliberada por parte desses eleitores pelo candidato fascista.
Nessas eleições, o que motivou o voto em Lula e no PT não foi o "amor", mas sim a revolta. A revolta contra o desejo de morte e a necropolítica. Janones, com sua estratégia das redes sociais, conseguiu mobilizar a revolta frente ao ódio crescente. Como eu previa em 2023, a Psicologia Social passou ao largo dos acontecimentos do tempo presente e não foi capaz de dar conta do que aconteceu nessas eleições. Também como eu concluí o post passado, a resposta veio das big techs. Mesmo com a Meta jogando contra a eleição de Lula, o Janonismo cultural conseguiu dobrá-la e utilizar sua própria tecnologia social contra a empresa e as elites.
Há nas redes sociais uma capacidade de mobilização ainda desconhecida. Isso marcará o Século XXI e decidirá nosso futuro. Continuarão as big techs a ditar os rumos políticos, ou conseguiremos, como nessas eleições, retomar o poder popular e dobrá-las à vontade do povo? Trata-se de uma guerra algorítmica com vencedores incertos. O fato é que qualquer psicólogo ou psicóloga que deseje estudar e conhecer o que está acontecendo precisa voltar-se às redes sociais. Elas são o território atual do desejo.
A capacidade de mobilizar afetos presente nessas redes é ainda pouco estudada e desconhecida. Necessitamos do desenvolvimento de novos termos e teorias. Se a fenomenologia-hermenêutica concebe o tempo histórico como o solo existencial no qual se desenvolve qualquer olhar, então necessitamos compreender que nosso tempo é um tempo maquínico. Um tempo ditado por algoritmos.
Se no início do Século XX a Psicologia incorporou a Estatística para criar a Psicometria como uma espécie de tecnologia da classificação e ordenamento social (Vide o artigo de 2008 de Nikolas Rose), então no Século XXI precisamos nos voltar novamente à Estatística para compreender a classificação e ordenamento vigentes através dos algoritmos. As caixas-pretas das redes sociais precisam ser abertas e destrinchadas. O inconsciente já não é mais pulsional, mas digital. Zeros e uns operam o desejo e mobilizam afetos em direções muitas vezes desconhecidas.
Uma tarefa premente para a Psicologia Social é voltar-se à Ciência de Dados, à Estatística, à Álgebra Booleana e à Matemática Computacional. As teorias e discursos montados do alto de torres de marfim são apenas pinturas opacas e desformes da realidade vigente. Os cômputos operados nos datacentes são o novo território de campo para os estudos dessa disciplina. Não podemos mais ignorar o que ocorre no terreno digital.
Dito isso, precisamos também aprender, com e como Janones, a canalizar a revolta para meios construtivos. Como dito pelo cantor e poeta Zack de La Rocha: "Anger is a gift". Por ora preservamos a democracia vigente, mas até quando e a que preço? Haverão ainda muitas e diversas mobilizações populares. E deixaremos elas serem encaminhadas e direcionadas pelas big techs? Ou teremos um partido de vanguarda, uma liderança orgânica e popular, que nos conduzirá ao futuro? Só o tempo dirá... Mas é fato que nosso século não será um século das revoluções tal como compreendidas por Hobsbawn nos 100 anos que nos antecederam. Os mecanismos agora são outros, e as mudanças sociais passam pelos algoritmos.




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