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Confissão: É esse o papel da Psicologia Clínica?

Atualizado: 3 de out. de 2025


Neste texto, vamos mergulhar em um debate fascinante e crucial para a psicologia clínica contemporânea: a discussão sobre o papel da confissão, da verdade e da cura. Para isso, nossa base será a análise aprofundada de três artigos acadêmicos que se complementam e, por vezes, se provocam mutuamente: "Da crise do sujeito à superação da confissão clínica", de Alexandre Marques Cabral (2012), "Confissão e Cura pela Revelação da Verdade Escondida: É o Objetivo da Clínica Psicológica?", de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo (2014), e "Repensar o papel da confissão na clínica: Um sentido presente em Kierkegaard", de Vitor Portavales Silva (2023).


Nosso objetivo é compreender como a psicologia fenomenológico-existencial se posiciona diante das críticas de Michel Foucault à confissão como um dispositivo de poder e controle, e como, mais recentemente, tem sido proposto um novo olhar para o termo "confissão" a partir do pensamento de Søren Kierkegaard. Preparem-se para uma viagem conceitual que promete desconstruir algumas ideias arraigadas e abrir novos horizontes para a prática clínica. Vamos começar!


O Problema da Confissão na Clínica Tradicional: A Perspectiva de Foucault e a Análise de Cabral e Feijoo

Para iniciarmos, é fundamental compreendermos o ponto de partida dessa discussão. Michel Foucault, um dos pensadores mais influentes do século XX, lançou uma crítica contundente às práticas confessionais. Para Foucault (1988), a confissão, tal como se consolidou no Ocidente a partir do cristianismo medieval, especialmente após o Concílio de Latrão em 1215, não é um ato de libertação, mas sim um dispositivo de poder, controle e docilização dos corpos e das existências. Ele argumenta que essa prática, inicialmente religiosa, foi herdada pelas instituições modernas, incluindo as áreas médica, jurídica e, claro, a psicológica.


A lógica por trás dessa confissão tradicional é a busca pela "verdade escondida" em uma suposta interioridade do indivíduo. A ideia é que, ao revelar esses segredos – que Feijoo (2014) chama de "verdade interiorizada" –, o sujeito encontraria a cura para seus conflitos, tensões e patologias psíquicas. Para isso, torna-se imprescindível a figura de um "terceiro" – o sacerdote, e posteriormente o terapeuta – que detém o saber e as "chaves" para desvendar o que está oculto. Esse especialista, munido de suas teorias e instrumentos, tem o poder de prescrever o que é "correto" e de "reintegrar" o indivíduo à ordem da qual ele supostamente se desviou.


É aqui que reside uma das críticas mais fortes: o terapeuta assume o papel de um "funcionário da verdade", legitimado por uma concepção de verdade como veritas, ou seja, a adequação do intelecto à coisa, a pretensão de que o discurso possa espelhar o "em si" do ente. Essa visão, segundo Foucault, implica uma postura moralizante e corretiva da prática clínica, que visa moldar o indivíduo a um modelo predefinido de normalidade. Assim, a psicologia tradicional é vista como uma herdeira da "opressão" cristã, em contraste com a "liberação" buscada pelos gregos antigos.


A Resposta da Psicologia Fenomenológico-Existencial

Agora, vamos entender como a psicologia fenomenológico-existencial responde a essa crítica. Tanto Cabral (2012) quanto Feijoo (2014) argumentam que a proposta clínica desenvolvida por Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo, expressa em obras como "A Existência para Além do Sujeito", rompe com o caráter confessional e moralizante das práticas clínicas tradicionais.


Feijoo parte de uma compreensão da crise da subjetividade moderna, que ela conecta à "morte de Deus" anunciada por Nietzsche. Essa "crise", longe de ser apenas degenerativa, é vista como "regenerativa", ou seja, ela descortina um novo horizonte interpretativo e abre novas possibilidades para o pensamento psicológico. Se a metafísica da presença, que sustentava a ideia de um "eu" substancial e de uma verdade "em si", se dissolve, então a verdade não pode mais ser especular.


É nesse ponto que a apropriação dos pensamentos de Edmund Husserl e Martin Heidegger se torna crucial.


1. A Contribuição de Husserl: Feijoo destaca a crítica de Husserl à "atitude natural", que reifica o psiquismo humano, tratando-o como dotado de propriedades previamente constituídas. Para Husserl, a consciência é intencional, ou seja, é sempre "consciência de algo...". Isso significa que ela não é uma interioridade fechada em si mesma, mas está sempre aberta para correlatos, marcando-a com um elemento "extático". O "eu fenomenológico" é visto como uma "síntese de vivências intencionais", destituído de propriedades ontológicas pré-dadas. Ou seja, não há um "eu" fixo a ser descoberto, mas um eu que se constitui nas suas relações e vivências.


2. A Contribuição de Heidegger: Indo "além do sujeito", Feijoo apropria-se do conceito heideggeriano de existência (Dasein). Para Heidegger, o Dasein (o "ser-aí" humano) não possui uma essência predefinida, pois "a essência do ser-aí é a sua existência". Existir significa "ek-sistir", ou seja, "ser-arremessado-para-fora-de-si", jogado em um horizonte histórico-mundano de realização de si. Somos "poder-ser", constituídos pela "nadidade" ou "negatividade", o que nos torna fundamentalmente finitos e mortais. A singularidade do Dasein realiza-se na assunção de suas possibilidades. Além disso, o Dasein está sempre afetivamente articulado com o mundo histórico.


Essa perspectiva heideggeriana permite a Feijoo e Cabral desconstruir o conceito tradicional de sujeito, que é visto como uma concepção alienada de nossa condição mais própria. A verdade não é mais entendida como veritas (correção ou adequação), mas como aletheia (desvelamento). Ou seja, a verdade emerge na própria experiência e no movimento do ser, e não como algo a ser "descoberto" em um plano oculto.


A "destruição" (ou desconstrução) heideggeriana, que Feijoo adota, não é um ato de aniquilação, mas um processo de elucidação das raízes existenciais dos conceitos da tradição. Trata-se de "reinscrever os conceitos da tradição na estrutura do ser-aí, resignificando-os". Isso proporciona uma "liberdade para o pensamento", permitindo superar os "encurtamentos" legados pela tradição metafísica.


E como tudo isso se traduz na prática clínica proposta por Feijoo?

Na clínica fenomenológico-existencial, a prática não parte de modelos teóricos pré-definidos que "mapeiam a subjetividade" ou "estabelecem leis" para o funcionamento humano, como a psicanálise ou o behaviorismo. Ela não busca objetivar diagnósticos nem reduzir o ser humano a "casos particulares" de teorias. A terapia não visa "adaptar o homem" ou "reduzir suas tensões".


O terapeuta não é o detentor da verdade, que sabe o que o outro necessita. Pelo contrário, ele não é o "protagonista", mas um "dos personagens" em um "jogo que abre as portas para a simples possibilidade do acontecimento da reinvenção de si". A riqueza do terapeuta reside em sua "docta ignorantia" (ignorância douta), ou seja, em sua sabedoria em não lançar mão de ideias universais de homem, mas em participar favoravelmente da "travessia existencial" do outro, sem aplicações corretivo-morais. A clínica é um espaço para o "cuidado de si", resgatando o sentido grego de uma prática refletida da liberdade, em oposição ao "saber de si" moralizante da modernidade.


Assim, a proposta de Feijoo busca superar o caráter confessional e moralizante da clínica tradicional, distanciando-se de qualquer modelo que prometa a "cura pela revelação da verdade escondida".


Repensando a Confissão: A Contribuição de Kierkegaard por Victor Portavales Silva

Agora, vamos avançar um pouco mais nesse debate, trazendo a contribuição de Victor Portavales Silva (2023). Após as análises de Cabral e Feijoo, Silva se pergunta: a proposta de Feijoo escapa de toda e qualquer definição de confissão, ou apenas do sentido estrito e problemático apontado por Foucault?. Ele nos lembra que a própria Feijoo (2014) já apontava que nos primórdios do cristianismo, a confissão era um "reconhecimento da fragilidade da vida humana" que não necessitava da figura de um terceiro (o sacerdote), sendo uma "relação direta com Deus para que o homem pudesse se encontrar consigo mesmo". O sacerdote como mediador e corretor, elemento central da crítica foucaultiana, surge posteriormente.


Silva (2023) propõe, então, retomar a polissemia do termo "confissão" a partir do pensamento de Søren Kierkegaard. Kierkegaard, um ferrenho crítico da religiosidade institucional de seu tempo (a "cristandade"), distinguia-a do "cristianismo" original, que valorizava o caráter "crístico" da palavra divina. Para ele, a experiência religiosa autêntica não envolvia mediação, mas um "diálogo interior" e um contato direto e imediato com o Divino e o Eterno.


O Sentido Arcaico-Originário da Confissão em Kierkegaard:

No seu livro "Discursos Edificantes em Diversos Espíritos", Kierkegaard aborda o tema da confissão. Ele afirma que a confissão não serve para informar a Deus, que já é onisciente. O verdadeiro propósito é que o próprio indivíduo "conheça sobre si mesmo" o que antes desconhecia. Pensem nisso: o ato de confessar-se não é sobre contar algo a alguém que não sabe, mas sobre a pessoa que confessa tomar consciência de si mesma.


Essa confissão é descrita como um "ato de transcendência" e uma "apropriação da liberdade". É um "salto de fé" que permite a superação do desespero. Lembrem-se que, para Kierkegaard, o "eu" não possui "identidades absolutas", mas se "conquista performaticamente", sendo "poder-ser". A essência do eu é a "liberdade" e um "permanente vir-a-ser", uma constante edificação.


A "pureza de coração", conceito kierkegaardiano, é comparada a um oceano: só é puro se for profundo e transparente. O ato de confissão, nesse sentido, seria o "abalo sísmico" capaz de gerar essa profundidade (consciência do eu) e transparência (o tornar-se si mesmo). A obra de Kierkegaard é uma espécie de "maiêutica", um "parto de ideias" que visa o "parto do eu", a "exegese do si mesmo".


Implicações para a Clínica Existencial:

Silva (2023) argumenta que esse sentido arcaico-originário de confissão, como um diálogo interior e um genuíno "cuidado de si", pode e deve ser apropriado pela psicologia fenomenológico-existencial. Nesta perspectiva, o terapeuta não atua como aquele que prescreve ou detém a verdade sobre o outro, mas como alguém que "cria as condições de possibilidade para que esse diálogo possa se estabelecer". Ele é um facilitador para que o indivíduo realize sua própria "edi-ficação" – construir-se sobre os fundamentos da sua própria existência. Não se trata de desvendar um inconsciente ou uma natureza humana pré-determinada, mas de auxiliar o cliente a tomar consciência de sua liberdade e das possibilidades que o constituem, em um movimento contínuo de tornar-se a si mesmo.


Considerações Finais

Chegamos ao fim de nossa jornada por esses artigos ricos em discussões sobre a psicologia clínica. Recapitulemos os pontos principais:


Vimos que a crítica de Foucault à confissão como um dispositivo de controle e moralização das existências é um ponto de partida fundamental. No entanto, Cabral (2012) e Feijoo (2014) demonstraram como a psicologia fenomenológico-existencial, ao se fundamentar nas filosofias de Husserl e Heidegger, rompe com a ideia de uma verdade especular e de uma subjetividade substancial. Essa abordagem desloca o foco da "descoberta" de segredos para a compreensão da existência como um "poder-ser" em constante movimento, um Dasein que se constitui na relação com o mundo e na assunção de sua finitude. O terapeuta, nessa visão, atua como um facilitador do "cuidado de si", abandonando o papel de "funcionário da verdade" e moralizador.


Por fim, a análise de Silva (2023) trouxe uma nuance importante, mostrando que o termo "confissão" pode ser ressignificado. Inspirado em Kierkegaard, ele nos convida a pensar a confissão não como uma revelação coercitiva a um terceiro, mas como um "diálogo interior" essencial para o "tornar-se si mesmo", uma apropriação da própria liberdade em contato direto com o "Eterno" – ou seja, a própria potencialidade da existência.


Em síntese, o desafio lançado por Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo é corajoso e transformador: "pensar a existência para além do sujeito (supósitos metafísicos) e, assim, entrar na senda dos enigmas existenciais e não das respostas cabais". A psicologia fenomenológico-existencial não busca aniquilar a clínica, mas sim lançar-lhe novos e mais autênticos horizontes, centrados na singularidade e na liberdade de cada ser que se manifesta em sua própria existência.


A discussão continua, e a "sorte está lançada" para aqueles que se aventuram a repensar a prática clínica de forma mais humana e menos dogmática.


Muito obrigado por sua atenção e até o próximo texto!


Referências:

Cabral, A. M. (2012). Da crise do sujeito à superação da confissão clínica. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 12(3), 987-1006.


Feijoo, A. M. L. C. (2014). Confissão e cura pela revelação da verdade escondida: é o objetivo da clínica psicológica?. Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies, 20(2), 221-227.


Silva, V. P. (2023). Repensar o papel da confissão na clínica: Um sentido presente em Kierkegaard. Aoristo-International Journal of Phenomenology, Hermeneutics and Metaphysics, 6(1), 90-104.

 
 
 

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