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Compulsão: Excesso ou Desmedida?

Feijoo e Dhein, em artigo de 2017, contraporam as definições científicas mais comuns às definições fenomenológicas do que se convenciona chamar atualmente de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Em artigo de 2014, as autoras trouxeram uma descrição fenomenológico-hermenêutica do TOC, articulando o quadro com as noções de tédio e técnica.


Em uma definição mais corriqueira e do senso-comum o TOC pode ser definido a partir de um excesso de comportamentos e pensamentos. Mas um excesso em relação ao quê, exatamente? A uma média ou normalidade, poderia se dizer. Contudo, mesmo o DSM-V-TR define que a compulsão deve trazer prejuízo "no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo". Não é tanto um excesso objetivo o que importa, mas uma perda de medida que só pode ser avaliada subjetivamente.


A desmedida é um problema inerentemente humano, que está presente em todos os tempos históricos e já era tematizada pelos gregos antigos, por exemplo. Na antiguidade clássica a desmedida era chamada de hybris ou hubris (ὕβρις). Nesse período, acreditava-se que a justa medida devia ser dada pelo destino e decidida pelos Deuses. Qualquer desvio do caminho a ser trilhado seria então punido com nêmesis (Νέμεσις), o castigo divino. Pode-se dizer que na compulsão o castigo é o sofrimento.


A hybris contrapunha-se justamente ao métron (mɛtrɒn), compreendido como a medida existencial. A hybris poderia ser entendida como loucura, orgulho, arrogância ou mesmo confiança excessiva. Um exempl clássico de hybris é dado por Édipo, que ao tentar fugir de seu destino acaba por cumpri-lo, entra em loucura e perfura os próprios olhos. Também na bíblia vemos um castigo pela arrogância de Adão e Eva ao serem expulsos do paraíso.


Mas se a hybris e suas consequências se fazem presentes em todos os tempos históricos, qual seria a marca da compulsão na atualidade? Vivemos no que Heidegger denominou de Era da Técnica, que é marcada justamente por um excesso de produção e consequentemente de comportamentos. Se há esse excesso, então como podemos patologizar justamente um quadro marcado pela perda da medida? Uma das formas de perda de medida contemporâneas que é patologizada é a depressão, mas pela falta de comportamentos. O transtorno obsessivo-compulsivo é marcado pelo excesso de comportamentos e pensamentos, mas de forma não-produtiva, e essa é a chave para compreendermos porquê e como ele é patologizado.


Em geral, as preocupações excessivas e os comportamentos evitativos em relação à situação temida dominam o cotidiano da pessoa acometida com TOC. É curioso, porém não surpreendente, que um dos critérios de avaliação seja justamente o prejuízo profissional, já que a medida é dada pela produção. A desmedida, ou hybris, em nosso tempo, é a falta de produtividade.


Não argumento a favor de deixarmos de tratar o TOC ou não compreendermos os sofrimentos subjacentes ao transtorno, mas devemos compreendê-lo para além do mero reestabelecimento da funcionalidade ou da produtividade. E uma das características mais marcantes do TOC é epocal: a tentativa de controle excessivo. Eis o paradoxo: perde-se o controle na tentativa de restabelecê-lo.


É na tentativa de suprimir situações ou pensamentos temidos que reside a origem do quadro. E mesmo os tratamentos mais convencionais, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), consistem em encarar gradativamente o temido tentando suprimir a ansiedade que acompanha esse processo.


A conclusão óbvia é que simplesmente não é possível evitar por completo situações temidas, de modo que é preciso aprender a conviver com elas. Mas isso deve ser feito de forma cuidadosa. Simplesmente ensinar técnicas de controle da ansiedade tais como técnicas de respiração, sem a exposição gradativa e sem trabalhar a própria problemática que cerca essa tentativa de excesso de controle podem agravar o quadro. A promessa de que seja possível controlar a própria ansiedade pela respiração é falha, e pode acentuar o quadro ao apresentar um novo tipo de comportamento evitativo, que pode tornar-se ele mesmo um novo ritual.


Em um tempo marcado pelo excesso de controle, devemos prezar pela falta. Precisamos compreender intimamente que não temos controle sobre todas as situações, e só assim poderemos alcançar um pouco mais de serenidade em nossas vidas. Faz parte da justa medida, do metron, encontrarmos nossa própria medida em contraposição à imposição de nosso tempo. Essa é a grande saúde.

 
 
 

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