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Como lidar com a perda de um paciente para o suicídio?


Ontem, dia 17/09/2025, participei de uma reunião do grupo autointitulado "Anti-mentoria Psis", que se trata de um coletivo de profissionais e estudantes de psicologia que discute temas relacionados à profissão de maneira aberta e horizontal, sempre com o intuito de enriquecer o grupo a partir da partilha de experiências. O tema do encontro foi "Como lidar com a perda de um paciente para o suicídio?". Quando fui convidado para mediar o encontro, logo lembrei de uma situação pessoal.


Eu nunca perdi diretamente um paciente para o suicídio. Nunca me ocorreu de estar atendendo uma pessoa e ela decidir encerrar a própria vida. Considero isso sorte, porque atendo e atendi diversas pessoas com ideação e tentativas anteriores. Mas me ocorreu algo muito próximo disso... Perdi uma pessoa com quem tive um único contato, que não se tratou bem de um atendimento, mas mais um pedido de ajuda.


Certa vez fui procurado por uma aluna de graduação na instituição em que eu fazia meu doutorado. Todos sabiam do meu tema de pesquisa, e era comum que me procurassem para falar sobre ele. O tema da tese era a experiência do suicídio, a partir do ponto de vista de quem tenta acabar com a própria vida. Dessa forma, quando fui procurado por ela, senti uma certa ansiedade e desconforto, pois já antecipava do que se trataria a conversa. Respondi que poderia encontrá-la na cantina da faculdade, e ela retrucou dizendo que preferia um local mais reservado. Minha preocupação aumentou...


No dia e hora marcados encontrei com ela, e fomos até uma sala mais reservada, no serviço de psicologia aplicada, onde havia salas preparadas para atendimentos clínicos. Ela começou a contar sua história, e vi o desespero em pessoa. O desejo de morte era muito intenso. Ela falou sobre as dificuldades nas relações familiares, sobre tentativas anteriores e muitos outros assuntos. Eu ouvia atentamente, mesmo que não pudesse fazer muita coisa.


Até que ela disse uma frase que me marcou profundamente: "Eu arranquei meus cabelos!", e apontou para a cabeça com os olhos marejados. Os meus também ficaram, mesmo que eu não entendesse muito bem o que ela desejava exprimir. Só conseguia pensar na angústia tremenda que deve ter motivado esse ato. Seus cabelos eram cacheados e muito bonitos, mas estavam bem curtinhos.


Em um certo momento ela me indagou: "Como você consegue continuar?" E eu fiquei sem resposta. Pra quem não sabe, sou um sobrevivente de uma tentativa violenta, em que perdi a perna esquerda. Até hoje convivo com as sequelas desse ato. Diante da pergunta, simplesmente não soube o que falar. Eu entendia o desespero que a motivava, eu sabia do que ela estava falando. Mas eu não conseguia dizer o que me motiva a continuar. Talvez não fizesse sentido para ela. Porque o que me motiva é poder ajudar outras pessoas.


E meu jeito de tentar ajudar ela foi buscar mais ajuda. Conversei com alguns setores da universidade para acolher essa aluna, e verificamos também que ela já tinha acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Dessa forma, não caberia a mim atendê-la clinicamente. Eu poderia no máximo ser alguém próximo, alguém que pudesse ouvir e talvez aconselhar nos momentos difíceis.


O tempo passou, e um dia ela me mandou mensagem através do Facebook. Eu estava viajando a trabalho. Estava fora do Rio de Janeiro. Eram por volta de 21h, e ela parecida bêbada pelo tom das mensagens e pela voz nos áudios. Novamente não havia muito o que eu pudesse fazer além de ouvir e aconselhar. Em um certo momento eu disse "Acho que você precisa buscar ajudar". E o tom da conversa mudou. Ela ficou mais reticente e passou a responder de forma mais breve.


Tivemos poucos encontros depois dessa conversa virtual... Veio a pandemia e o lockdown. Depois de mais de um ano trancado, vi uma postagem do Instituto de Psicologia da universidade. Era uma homenagem à aluna, que havia falecido. Eu simplesmente sabia o que teria ocorrido, mesmo que ninguém tivesse me contado. Eu entendia a dor que perpassa aquela alma, sabia que o suicídio era uma saída cogitada por ela. Mantive-me em silêncio, respeitei a sua dor. Não comuniquei minha suspeita a ninguém, mas algumas pessoas vieram confirmá-la, mesmo que eu não houvesse pedido.


Até hoje convivo com uma notificação no Instagram, uma sugestão para segui-la. De vez em quando entro em seu perfil, vejo suas fotos. A maior parte delas alegre, jovial, brincando com os filtros do aplicativo. A tela não transmite a dor com que pude ter contato...


Diante desse tipo de situação é muito comum experimentarmos culpa: "O que eu poderia ter feito para evitar esse desfecho?" O suicídio ainda é encarado como uma falha individual e também social. O estigma acompanha quem morre, e a culpa assola quem fica. Mas devemos nos questionar: "Realmente seria possível impedir esse acontecimento? Poderíamos de fato evitar o que ocorreu?" Em geral, as pessoas fazem o melhor que elas podem. Meu caso não foi muito diferente. Eu tinha pouca margem para manobra. Mas isso não apaga a tristeza e a falta que continuam a me acompanhar, sobretudo quando vejo aquela sugestão de perfil.


E você, tem alguma experiência nesse sentido? Como foi pra você passar por isso? Deixe um comentário, para que possamos criar uma rede de apoio mútuo.

 
 
 

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