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Caracterização da Produção Brasileira em Psicologia Fenomenológico-Existencial no Séc. XXI

Atualizado: 23 de jul. de 2025

O presente texto é uma reprodução parcial de artigo publicado na Revista AMAZônica, porém com imagens em alta resolução. O link para o artigo original pode ser conferido aqui: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=9950805


Introdução:

O presente texto tem por finalidade caracterizar o campo da Psicologia fenomenológico-existencial em sua produção brasileira no século XXI. Para alcançar esse objetivo, aplicamos um método cienciométrico para delimitar informações como periódicos e autores com maior número de publicações, relações de coautoria entre diferentes autores, produção ao longo do tempo, entre outras análises.


A cienciometria se caracteriza como um método quantitativo e qualitativo de análise da produção científica, empregando análises estatísticas, categoriais e ordinais para caracterizar o tema de interesse. Segundo Hood e Wilson (2001), o termo cienciometria foi cunhado na década de 1960 por Vassily V. Nalimov e possui sobreposições com os métodos da bibliometria e da infometria. A preocupação central da cienciometria é a caracterização de uma temática de estudos a partir de dados gerais acerca da produção científica em uma determinada área de estudos. Para atender a essa preocupação, ela se utiliza de técnicas de análise de títulos, autores, palavras-chave, conteúdos e outros dados da produção estudada. Pelo tipo de análise preconizada pela cienciometria, o uso de softwares de gestão bibliográfica e de análises estatísticas oferecem um importante suporte. Ao longo do texto iremos descrever as ferramentas utilizadas.


A coleta dos artigos foi realizada na base de dados do Google Acadêmico, utilizando os termos exatos “psicologia fenomenológica” e “psicologia fenomenológico”. Utilizamos essas duas expressões exatas por considerar que elas abarcam a multiplicidade presente no campo da psicologia fenomenológico-existencial, já que há denominações similares, tais como: psicologia fenomenológica, psicologia fenomenológica e existencial, psicologia fenomenológica humanista, psicologia fenomenológico-hermenêutica, psicologia fenomenológica-existencialista, entre outros. Para a realização deste trabalho, consideramos todas essas denominações como pertencentes a um e mesmo campo mais amplo, o da psicologia fenomenológico-existencial.


A busca foi limitada ao período de 2000 a 2023, e foram considerados apenas artigos científicos de revistas indexadas, sendo desconsiderados outros documentos presentes na base de dados, como teses, dissertações, capítulos, livros, ementas de disciplinas, artigos de bases não indexadas, etc. A busca foi limitada a páginas em português e foram excluídas da busca patentes e citações. A busca pela expressão “psicologia fenomenológica”, no período indicado, trouxe 2.900 resultados, enquanto a expressão “psicologia fenomenológico” trouxe 1.060 resultados. As duas buscas foram realizadas às 20:15 do dia 13 de abril de 2024. Após a triagem dos resultados, adotando o critério de exclusão descrito, restaram 710 artigos para análise. Os artigos foram salvos na plataforma do Google Acadêmicos e exportados em formato de lista no formato BibTEX.


De posse dos artigos, realizamos o procedimento de ajuste dos metadados importando a lista em formato BibTEX para o software Mendeley e realizando a conferência e alteração manualmente através das ferramentas de busca e edição presentes nesse gestor de referências. Uma vez realizado o ajuste dos metadados, tais como preenchimento de campos em branco, padronização dos nomes de autores e revistas, etc, exportamos novamente a listagem em formatos RIS e BibTEX. Esses novos arquivos de listagem foram então analisados através dos softwares Bibliometrix (Aria & Cuccurullo, 2017) e VosViewer (Van Eck & Waltman, 2010). Os resultados encontram-se expostos nos gráficos presentes neste texto.


O fluxograma abaixo resume as etapas adotadas para obtenção das análises dos artigos, bem como critérios de inclusão e exclusão adotados.

 

Figura 1 – Fluxograma das etapas adotadas na seleção de artigos e produção das análises.

 

Embora a amostra analisada não seja equivalente à totalidade de artigos produzidos no campo da psicologia fenomenológico-existencial no período de 2000 a 2023, já que podem existir artigos que não constam na base de dados do Google Acadêmico, consideramos essa a base de dados de artigos mais vasta, de modo que a amostra analisada pode ser tida como significativa em relação à totalidade de artigos. As tendências identificadas parecem ser, portanto, representativas do campo estudado.

 

1)      A produção do campo ao longo do tempo:

Um dos primeiros resultados obtidos através do uso do Bibliometrix foi o gráfico de produção ao longo do tempo, no qual é possível identificar o quantitativo de artigos publicados em cada ano, de 2000 a 2023:

Figura 2 – Quantitativo de artigos publicados ao longo do tempo.

 

O gráfico nos permite observar uma tendência exponencial na produção ao longo do tempo, passando de 6 artigos no ano 2000 para 84 em 2023. Isso parece ter ocorrido pelo maior interesse no campo da psicologia fenomenológico-existencial, bem como pela formação de maior número de pesquisadores. Veremos, na listagem de autores mais frequentes, que grande parte deles realizou o processo de doutoramento no final dos anos 90 ou início dos anos 2000. As revistas com maior número de publicações também foram criadas, majoritariamente, no período estudado, o que também pode explicar o crescimento no número de publicações.


Segundo Feijoo e Protásio (No prelo), a expressão psicologia fenomenológico-existencial foi introduzida no Brasil pelo professor Antônio Gomes Penna, que já em 1978 utilizava essa terminologia em suas aulas. Contudo, as autoras indicam que a expressão só constou em uma publicação escrita no ano de 1991, e se tornou popular com a publicação da tese de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo em formato de livro. O título do livro foi “A Escuta e A Fala em Psicoterapia: Uma Proposta Fenomenológico-Existencial” (Feijoo, 2000) e a data de publicação foi justamente o ano 2000.


Antes mesmo da publicação de seu livro, Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo já organizava grupos de estudos sobre psicologia fenomenológico-existencial, o que culminou na criação do IFEN (Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro) em 1996. Considerando que este foi um dos primeiros institutos a oferecer cursos de especialização junto ao CFP (Conselho Federal de Psicologia), o IFEN parece ter sido também um importante polo de propagação da psicologia fenomenológico-existencial no Brasil.

 

2)      Caracterização dos periódicos:

Os periódicos com maior número de publicações encontram-se descritos no gráfico abaixo:


Figura 3 – Periódicos com maior número de publicações.

 

A Revista da Abordagem Gestáltica aparece como a mais frequente, tendo 42 artigos inseridos no critério amostral adotado nesta pesquisa. A revista Amazônica é a segunda colocada, com 38 artigos, e a revista do NUFEN a terceira, com 28 artigos. Na sequência temos as revistas Memorandum, Psicologia em Estudo e Estudos e Pesquisas em Psicologia, na faixa dos 21 a 23 artigos. Estudos de Psicologia, Psicologia Ciência e Profissão e Psicologia: Teoria e Pesquisa ficam nas posições finais, com menos de 20 publicações cada.

 

Também foi possível obter um gráfico com a produção em cada revista ao longo do tempo:

Figura 4 – Contribuição de cada revista ao longo do tempo.

 

O primeiro artigo na Revista da Abordagem Gestáltica aparece em 2005, e em 2009 ela alcança sua hegemonia no campo da psicologia fenomenológico-existencial, mantendo-o desde então. A revista Amazônica desponta, desde 2022, como uma tendência importante para esse campo de estudo. Curiosamente, os editores de ambas revistas são autores com quantidade vasta de publicações e bastante citados. Adriano Furtado Holanda é o editor da Revista da Abordagem Gestáltica desde sua criação, e Ewerton de Castro passou a integrar o corpo editorial da revista Amazônica recentemente. Outra revista que teve crescimento relevante nos últimos anos foi a Revista do NUFEN, cotada como a terceira revista com maior número de artigos em 2023.

 

3)      Autores mais frequentes:

Assim como os periódicos, o Bibliometrix nos permite calcular e classificar o quantitativo de artigos produzidos por cada autor, como no gráfico abaixo:


Figura 5 – Autores com maior número de artigos publicados.

 

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo aparece como a autora com maior número de publicações no período estudado, com 55 artigos, seguida de Ewerton Helder Bentes de Castro, com 52, Tommy Akira Goto, com 23, Adriano Furtado Holanda, com 20, Janderson Costa Meira, com 19, Myriam Moreira Protásio, com 18, Joanneliese de Lucas Freitas, com 10, assim como Paulo Coelho Castelo Branco, e em seguida Cristine Monteiro Mattar e Denis Guimarães Pereira, com 9.


Também foi possível gerar um gráfico contendo a distribuição da produção dos artigos de cada autor ao longo do tempo, permitindo-nos analisar momentos de maior e menor produtividade de cada autor:

Figura 6 – Produção de cada autor ao longo do tempo.

 

A partir do gráfico podemos notar uma constância de produtividade de Ana Feijoo a partir de 2010, e de Ewerton de Castro e Tommy Goto a partir de 2016. Adriano Holanda possui constância de produção a partir de 2009. Janderson tem todas as publicações concentradas entre 2021 e 2023. Myriam Protásio possui alguns períodos sem publicações por volta de 2013 e 2016. Demais autores apresentam uma tendência menos constante de publicações.


Com relação à quantidade de citações, buscamos dentre esses autores aqueles que possuíam perfil ativo no Google Acadêmico e consultamos o quantitativo de citações indexadas pela plataforma. Essa busca gerou o gráfico abaixo:

Figura 7 – Quantidade de citações por autor.

 

Dessa forma, a posição relativa, quando comparada com o número de artigos publicados é alterada. A quantidade de autores analisada foi reduzida, pois nem todos possuíam perfil ativo no Google Acadêmico. O número de citações reflete toda a obra do autor, mesmo fora do período de interesse deste texto, além de poder referir-se a capítulos, livros, e outros documentos produzidos pelo autor.


Outro dado de interesse obtido através da busca pelos autores no Google Acadêmico foi o índice h, que é calculado com base na quantidade de artigos com 10 ou mais citações. Paulo Coelho Castelo Branco não possuía essa métrica em seu perfil, então foi excluído dessa análise. Os resultados encontram-se resumidos na tabela abaixo:


Nome

Índice h

Ewerton Helder Bentes de Castro

9

Joanneliese de Lucas Freitas

11

Tommy Akira Goto

14

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

15

Adriano Furtado Holanda

25

Tabela 1 – Quantidade de artigos com 10 ou mais citações, por autor.

 

Decidimos então buscar as datas das teses de doutorado de cada autor, com a hipótese de que quanto mais antiga, maior seria a chance de o autor ter produzido durante maior período e consequentemente recebido mais citações. Ewerton de Castro finalizou sua tese em 2009 (de Castro, 2009), um estudo sobre a experiência do diagnóstico de câncer à luz da filosofia de Martin Heidegger. Joanneliese Freitas finalizou sua tese sobre a experiência de adoecimento e morte em adolescentes em 2005 (Freitas, 2005). Tommy Goto terminou sua tese sobre a psicologia em Husserl no ano de 2007 (Goto, 2007). Feijoo terminou sua tese sobre psicoterapia fenomenológico-existencial no ano 2000 (Feijoo, 2000). E Adriano Holanda, o mais citado, finalizou sua tese sobre Husserl e a pesquisa em psicologia no ano de 2002. Desse modo embora a data do doutoramento não reflita a posição exata na classificação pela quantidade de citações, a tendência se confirma quando comparamos blocos de autores, como os doutorados no início e no meio dos anos 2000.


Um dado importante a ser destacado, que não se observa nos gráficos e tabelas é a nacionalidade dos autores. Todos os 9 autores e autoras com maior número de publicações são nativos do Brasil. Isso significa que esse país possui hegemonia quanto à produtividade de publicações na denominação da psicologia fenomenológico-existencial e suas variantes. Possivelmente, isso não se confirmaria caso tivéssemos realizado a busca utilizando expressões ainda mais genéricas, como psicologia existencial. Essa característica da produção aponta para um movimento local, específico da comunidade de pesquisadores brasileiros, em contraposição à produção lusófona como um todo. Tal fenômeno merece maior divulgação em âmbito internacional.

 

4)      Grupos de pesquisa:

O uso do software VosViewer nos permitiu gerar um gráfico em formato de grafo, que exibe padrões de coautoria e permite visualizar a existência de grupos de pesquisa bem como o tamanho de sua produção:


Figura 8 – Grafo de produtividade e coautoria.

 

No grafo, o tamanho dos marcadores indica a quantidade de artigos publicados por cada autor, a proximidade e a existência de linhas entre autores indicam coautoria, e as cores indicam relação de coautoria forte. É possível ver, por exemplo, uma estreita colaboração entre Ana Feijoo e Myriam Protásio, já que ambas possuem uma quantidade grande de artigos em colaboração: 13 no total.


A partir da análise gráfica podemos perceber os grupos de Ana Feijoo e Ewerton de Castro como os com maior número de participantes e de publicações. O interessante é que há correspondência direta com a realidade, já que os coautores de Ana Feijoo participam ou participaram do Lafepe (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Fenomenologia e Psicologia Existencial) da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e os de Ewerton de Castro do LabFen (Laboratório de Psicologia Fenomenológico-Existencial) da UFAM (Universidade Federal do Amazonas). Outros grupos também estão representados no gráfico, como o Labfeno, nas figuras de Adriano Holanda e Tommy Goto, o Núcleo Poiesis de Elza Dutra, o Laboratório APHETO, de Virgínia Moreira e Georges Boris, além de diversos outros grupos de colaboração menores.


Um gráfico similar foi gerado no Bibliometrix, porém omitindo autores com pequeno número de publicações. Nele, é possível ver os grupos de colaboração em maiores detalhes:


Figura 9 – Grafo de grupos de pesquisa e colaboração.

 

Nesse gráfico surgem grupos menores, como a parceira entre Thiago Gomes de Castro e William Barbosa Gomes, entre André Prado Nunes e Henriette Tognetti Penha Morato, entre Hiran Pinel e Vitor Gomes e entre Ana Lúcia Pessoa Nunes e Shirley Macêdo.

 

Considerações finais:

A presente pesquisa se revela um interessante estudo de caso de aplicação da cienciometria, permitindo caracterizar o campo da psicologia fenomenológico-existencial em sua produção em língua portuguesa, revelando a forte influência brasileira e a pungente produção nacional. O uso de métodos quantitativos, pouco abordados nesse campo de estudo, se revela como um caminho profícuo para pesquisas futuras, e o apoio propiciado pela operação de softwares de análise foi fundamental para a realização desse trabalho.


As revistas e autores com maior quantidade de publicações são do Brasil, o que aponta para uma hegemonia desse país na produção em psicologia fenomenológico-existencial em língua portuguesa. A busca pela fundamentação filosófica parece ser uma característica desse movimento, o que se observa pela temática das teses dos autores com mais artigos. Isso contribui para a ideia de uma produção com características locais, em contraposição à produção estrangeira. A contribuição entre autores é frequente, o que amplia a ideia de um debate local em âmbito nacional. Esse acontecimento aponta para um movimento local, cuja existência merece divulgação em âmbito internacional.


Embora a amostra analisada não seja equivalente à totalidade de artigos produzidos no campo da psicologia fenomenológico-existencial no período de 2000 a 2023, já que podem existir artigos que não constam na base de dados do Google Acadêmico, consideramos que a amostra analisada pode ser tida como significativa em relação à totalidade de artigos. As tendências identificadas parecem ser, portanto, representativas do campo estudado.

 

Referências:

Araújo, C. A. A. (2006) Bibliometria: evolução histórica e questões atuais. Em Questão, Porto Alegre, v. 12, n. 1, p. 11–32. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/16. Acesso em: 14 abr. 2024.


Aria, M. & Cuccurullo, C. (2017) Bibliometrix: An R-tool for comprehensive science mapping analysis, Journal of Informetrics, 11(4), pp 959-975, Elsevier.


de Castro, E. H. B. (2009). A experiência do diagnóstico: o significado no discurso de mães de crianças com câncer à luz da filosofia de Martin Heidegger (Doutorado em Psicologia). Universidade de São Paulo.


Feijoo, A. M. L. C.  (2000). A escuta e a fala em psicoterapia: uma perspectiva fenomenológico-existencial em Psicologia (1 ed.). São Paulo: Vetor.


Feijoo, A. M. L. C. & Protásio, M. M. (No prelo). History of the Existential Movement in Psychology in Brazil.


Freitas, J. D. L. (2005). Ruptura e sentido na experiência de adoecimento e morte. (Doutorado em Psicologia). Instituto de Psicologia, Brasília, Universidade de Brasília.


Goto, T. A. (2007). A (re) constituição da psicologia fenomenológica em Edmund Husserl. (Doutorado em Psicologia). PUC Campinas.


Holanda, A. F. (2002). O resgate da fenomenologia de Husserl e a pesquisa em psicologia. (Doutorado em Psicologia) Campinas (SP): Universidade Católica de Campinas.


Hood, W.W., Wilson, C.S. The Literature of Bibliometrics, Scientometrics, and Informetrics. Scientometrics 52, 291–314 (2001). https://doi.org/10.1023/A:1017919924342


Van Eck, N.J. & Waltman, L. (2010). Software survey: VOSviewer, a computer program for bibliometric mapping. Scientometrics, 84(2), 523-538.

 
 
 

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