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A Melancolia e as Depressões


Olá! Sejam bem-vindos ao nosso estudo aprofundado sobre o Capítulo 7 do livro Fundamentos da Clínica Fenomenológica, que mergulha na Melancolia e Outras Depressões sob a lente transformadora da fenomenologia. Nosso objetivo aqui não é apenas listar sintomas, mas sim desvelar as alterações estruturais que definem a experiência fundamental desses quadros. Se você tiver interesse em adquirir o livro completo, você pode fazer isso através desse link: https://amzn.to/4gPBGNo

 

Fundamentos e a Inibição do Devir

Para começar, precisamos contextualizar a melancolia. O termo é ancestral, remontando à Antiguidade e à medicina hipocrática, onde era associado ao excesso de bile negra e à quebra da harmonia dos humores. Historicamente, a melancolia funcionou como um diagnóstico abrangente, referindo-se tanto a uma doença mental específica quanto a um temperamento ou um estado emocional de profundo sofrimento.

 

A diferenciação entre os quadros depressivos é um desafio de longa data na psiquiatria. Kraepelin, em suas primeiras edições, separava a melancolia como fase da doença maníaco-depressiva da melancolia involutiva (associada ao envelhecimento), embora tenha abandonado essa distinção posteriormente. Jaspers, por sua vez, introduziu a divisão entre quadros depressivos endógenos e reativos, baseada em critérios causais ou de compreensibilidade. Contudo, percebemos que muitas dessas distinções históricas resultaram de uma mistura de critérios descritivos e etiológicos.

 

A Perspectiva Fenomenológica: Indo Além do Sintoma

psicopatologia fenomenológica entra nesse campo com uma missão clara: descrever e analisar as condições de possibilidade que tornam as alterações depressivas e melancólicas possíveis. Isso significa que o psicopatólogo deve suspender as suposições sobre explicações causais (sejam elas psicológicas ou biológicas) para tentar acessar e descrever a experiência vivida do paciente.

 

O foco dessa abordagem está na dissecação das dimensões básicas da estrutura da consciência, como: temporalidade, espacialidade, corporeidade, intersubjetividade e ipseidade.

 

Dentro dessa perspectiva, a opção nosológica proposta é diagnosticar com base em dois fatores principais: a velocidade dos processos psíquicos e as dimensões do campo vivencial (se ele está alargado ou estreitado).

• A Depressão é caracterizada pela lentificação ocorrendo em um campo vivencial estreitado.

• A Melancolia é marcada pela "fórmula psíquica do ‘não posso’", que, na ótica da temporalidade, define uma vivência estagnada ou coagulada.

 

É fundamental compreender a melancolia como uma condição endógena e uma psicose aguda afetiva, cuja marca é a inibição e o definhamento da vitalidade. Em essência, o quadro é a perda da harmonia e da ritmicidade que conectam o indivíduo ao seu mundo.

 

A Afetividade e o Tempo Melancólico

Vamos agora explorar a natureza do sofrimento melancólico, que é qualitativamente diferente da tristeza comum.

 

Afetividade Melancólica: Dissonância e Imobilidade

A fenomenologia situa o humor e os sentimentos nas relações de um sujeito inserido no mundo, em contraste com as ciências cognitivas que os localizam no sistema nervoso.

Aqui, a distinção entre sentimento e humor é vital.

• Sentimentos (como a tristeza) são temporais, compreensíveis na biografia e têm início e fim.

• O Humor Melancólico tem relativa estabilidade, não é necessariamente motivado por fatores externos e, crucialmente, carece de início e fim.

 

O sofrimento melancólico é singular devido a três aspectos centrais:

1. Ressonância: O sofrimento melancólico não encontra ressonância nos outros, gerando uma dissonância atmosférica na coexperiência. Ele é marginalizado para a incompreensibilidade, e o próprio paciente, ao se recuperar, o considera incompreensível. Para compensar essa falta de sintonia, o melancólico repete suas queixas de forma estereotipada.

2. Identificação com o Objeto: Enquanto a tristeza normal está ligada a um objeto biográfico, o sofrimento melancólico está enraizado no humor e no corpo desvitalizado. O objeto da dor (ruína financeira, doença imaginada) é, portanto, arbitrário. O melancólico é um espectador passivo de seu próprio sofrimento estranho.

3. Estrutura Temporal: A tristeza tem uma evolução temporal. O sofrimento melancólico é deformado pela imobilidade temporal.

 

A Temporalidade: Inibição do Devir

Minkowski, Straus e von Gebsattel, pilares da primeira fase da psicopatologia fenomenológica, postularam que a alteração do tempo vivido é a modificação central na melancolia.

 

tempo vivido é o dinamismo vital ou devir humano, que é préreflexivo. Na melancolia, temos uma inibição do devir, uma estagnação do tempo vivido.

 

Straus contribuiu para essa visão dividindo o tempo vivido em imanente (subjetivo, íntimo do Eu) e transiente (tempo do mundo, articulado intersubjetivamente). No melancólico, o tempo imanente está paralisado, enquanto o tempo transiente continua a fluir.

 

Binswanger e Tellenbach: A Gênese Estrutural

Avançando, chegamos à contribuição tardia de Binswanger e à visão endocosmogênica de Tellenbach, que nos ajudam a entender a gênese e a personalidade vulnerável.

 

Binswanger: A Gênese Transcendental

Ludwig Binswanger, em sua obra Melancolia e Mania, propôs um estudo da gênese constitutiva transcendental da experiência melancólica. Ele dissecou os modos deficientes dos momentos constitutivos intencionais da temporalidade: retenção, protensão e apresentação.

• Retrospecção Melancólica: O passado é dominado pela autoacusação, expressa na forma condicional. As possibilidades livres se convertem em intenções vazias.

• Protensão Melancólica (Futuro): O paciente vivencia a perda futura como um fato já consumado ou em vias de se realizar. Não se trata de pessimismo, mas de uma certeza que resiste a evidências contrárias. Há uma infiltração de momentos retentivos na protensão.

 

Essa deformidade leva ao estilo da perda, constituindo o delírio melancólico (culpa, punição e ruína), que estreita os grandes temas existenciais relativos ao Eu. O melancólico é barrado pelo "não poder". A morte se apresenta como transcendente (exterior), e o suicídio surge como superação do estado patológico, e não como morrer de fato.

 

Tellenbach e o Typus Melancholicus

Hubertus Tellenbach introduziu a noção de Endogeneidade para explicar a predisposição à melancolia, definindo o Typus Melancholicus. O Endon é um "terceiro campo de causas" (metasomático e metapsíquico).

 

O Endon possui cinco características, incluindo: ritmos alterados (ciclos vitais), cinética própria (movimento vital com acelerações e retardamentos), globalidade das transformações e reversibilidade das psicoses fásicas.

 

Typus Melancholicus é uma tipologia de personalidade vulnerável, estruturada na relação indivíduo-mundo por:

1. Ordenalidade: Busca incessante por manter a ordem nas relações sociais para evitar culpa ou dívida.

2. Conscienciosidade: Rigidez e escrupulosidade que eliminam a flexibilidade necessária para adaptação às mudanças.

3. Hypernomia/Heteronomia (Kraus): Adesão exagerada a regras e expectativas externas (papéis sociais) como compensação pela falta de realizações do ego.

4. Intolerância à Ambiguidade (Kraus): Dificuldade em lidar com características opostas, levando a uma visão rígida da realidade.

 

As Situações Pré-melancólicas são eventos que ameaçam a "ordem do ser-aí" (Daseinordnung) do typus melancholicus, sendo vivenciadas como desamparo e angústia.

• Remanência: É o "estancamento da vida do espírito", o ato de ficar aquém das obrigações, vivido como culpa e dívida.

• Inclusão: Situações que forçam a suspensão do modo típico, minucioso e conservador do melancólico (como mudança ou promoção), forçando-o a uma contradição existencial.

 

A Estrutura da Melancolia – Corpo e Espaço

Agora, analisamos como a inibição do devir afeta as dimensões fundamentais da existência.

 

Temporalidade: A Dessincronização

A temporalidade melancólica é a coagulação do tempo vivido e a inibição do devir vital. A primazia do futuro se perde, e o tempo reflui para o passado. Isso se traduz no "não poder" (incapacidade de agir sobre o mundo, comer, dormir, sentir).

 

Essa alteração leva a um fluxo temporal anômalo, com lentificação vital e domínio do passado sobre presente e futuro.

 

Outro aspecto crucial é a dessincronização entre o indivíduo e o meio. No typus melancholicus, a hipernomia se associa à hiper sincronia (necessidade de pontualidade e cumprimento de demandas), e a dessincronização é vivida como uma alteração da ritmicidade vital, característica da endogeneidade.

 

Corporeidade Melancólica: O Peso Insuportável

Na melancolia, o corpo subjetivo (Leib) se deteriora, e o corpo objetivo (Körper) se incrementa.

 

O resultado é um sentimento de peso, gravidade paralisante e fragilidade. O corpo perde sua leveza e mobilidade. O "não poder" é manifestado na incapacidade de realizar funções vitais.

 

O incremento do corpo objetivo leva à objetificação/reificação mórbida. Essa reificação manifesta-se como fadiga, constrição, opressão e angústia. O corpo é vivenciado como uma materialidade densa e dolorida, podendo culminar em despersonalização.

 

As alterações na corporeidade podem ser organizadas em três dimensões:

1. Relação consigo: Perda de energia, peso nos membros, dores e opressão precordial.

2. Relação sujeito-mundo: Distúrbio da intencionalidade afetiva corporificada, sentida como inabilidade generalizada e incapacidade de sentir prazer (anedonia).

3. Articulação com o entorno: Aspectos intersubjetivos essenciais para o diagnóstico fenomenológico.

 

Espacialidade Melancólica: Constrição

A espacialidade é marcada pelo estreitamento e afastamento do sujeito em relação ao mundo. Isso se manifesta como constrição sensorial e motora.

• Constrição Motora (Inibição Psicomotora): Lentificação dos gestos e ações. O mundo é difícil de alcançar, exigindo um "esforço homérico".

• Constrição Sensorial: Perda de vivacidade dos sentidos (cores apagadas, sabores perdidos) e anedonia.


A perda de profundidade torna o espaço estreito para a ação, com a vivência oscilando entre "a estreiteza opressiva e a amplidão vazia".

 

Intersubjetividade e Conclusão Fenomenológica

Finalizamos nosso estudo analisando a dimensão relacional e sintetizando a importância da abordagem estrutural.

 

Interpessoalidade Melancólica: A Segregação

A intersubjetividade no melancólico é definida pela deformação da sintonia (o "vibrar em uníssono" com o outro), promovendo afastamento, separação e segregação.

 

O sofrimento é incompreensível. O melancólico não consegue empatizar com o outro nem com o mundo, o que leva à anedonia.

 

culpa na melancolia merece atenção especial. Ela não decorre da interpessoalidade (dada a deformação da sintonia), mas se apresenta como um objeto em si, cravado no corpo denso e constrito. Por isso, é uma culpa sem solução, sem perdão. Os delírios de culpa podem ser entendidos por meio dessa alteração na interpessoalidade.

 

Conclusão: O "Não Posso" como Essência Estrutural

Em resumo, a melancolia é uma condição profunda que desestrutura as bases da existência. A fenomenologia nos permite avançar da simples descrição de sintomas para a análise de alterações estruturais prototípicas.

 

Vimos a transição da fenomenologia descritiva para a genética (Binswanger), que clarificou as deformidades no fluxo temporal, onde protensões e retenções se misturam, definindo um futuro catastrófico e imutável.

 

A gênese biográfica de Tellenbach, com o typus melancholicus e a endogeneidade, trouxe à luz a complexa relação do indivíduo com seu mundo rítmico, cuja alteração constitui a fisionomia da melancolia.

 

As dimensões vivenciais confirmam a primazia da inibição:

• Temporalidade: Inibição do devir vital e o julgamento do "não poder".

• Corporeidade: Deterioração do corpo-subjetivo e incremento do corpo-objetivo, levando à gravidade paralisante.

• Espacialidade: Constrição sensorial e motora, resultando no afastamento do mundo.

• Interpessoalidade: Deformação da sintonia, resultando em segregação.

 

O cerne da melancolia, portanto, é a perda da evidência natural e a experiência avassaladora do "não poder", enraizada na alteração constitutiva do tempo vivido.

 

Ficamos por aqui neste capítulo denso e riquíssimo, que nos mostrou a diferença radical entre a tristeza comum e a melancolia estrutural! Lembrando que essa discussão faz parte do nosso Grupo de Estudos em Psicopatologia: Transtorno Bipolar. Até a próxima!

 
 
 

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