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A ciência moderna é individualista?

Atualizado: 26 de dez. de 2022


Você também pode ouvir o conteúdo dessa postagem, se preferir:


Charles Darwin é, sem sombra de dúvidas, um dos autores mais influentes do século XIX. Sua Teoria da Evolução das Espécies revolucionou o campo da biologia, reverberando em diversas outras disciplinas, como geologia, arqueologia, antropologia, sociologia e psicologia. Grande parte das teorias da psicologia foi influenciada pela obra de Charles Darwin. Sua contribuição para a ciência é simplesmente imensurável. Contudo, alguns aspectos de sua teoria permanecem inquestionados no debate público.


E isso não ocorre na ausência de críticas. Darwin foi criticado por todos os lados, mas parece ter passado incólume frente a toda a hostilidade que sua teoria enfrentou. Mas o que pretendo fazer aqui, hoje, é retomar uma crítica bastante específica feita por Piotr Kropotkin, famoso autor anarquista russo.


Um dos trechos da obra "A Origem das Espécies", de Darwin, mais especificamente em seu capítulo III, trata da chamada "Concorrência Universal". O capítulo, por si só, já traz em seu título a ideia principal do texto: "A Luta pela Existência". Ao formular a ideia de uma seleção natural, Darwin pensa a história filogenética como um embate por sobrevivência. Somente os mais aptos e mais capazes sobrevivem à competição e às condições do ambiente. O que quase ninguém percebe é o tom individualista desta tese. Ora, essa competição e esse embate são pensados em termos individualistas. A espécie é selecionada positiva ou negativamente por meio de seus indivíduos, de seus existentes.


No início desse capítulo, Darwin explicita essa lógica de maneira resumida:


Pode ainda perguntar-se como é que as variedades, que eu chamo espécies nascentes, acabaram por se converter em espécies verdadeiras e distintas, as quais, na maior parte dos casos, diferem evidentemente muito mais umas das outras que as variedades de uma mesma espécie; como se formam estes grupos de espécies, que constituem o que se chamam gêneros distintos, e que diferem mais uns dos outros que as espécies do mesmo gênero? Todos estes efeitos, como explicaremos de maneira mais minuciosa no capítulo seguinte, dimanam de uma causa: a luta pela existência. Devido a esta luta, as variações, por mais fracas que sejam e seja qual for a causa de onde provenham, tendem a preservar os indivíduos de uma espécie e transmitem-se ordinariamente à descendência logo que sejam úteis a esses indivíduos nas suas relações infinitamente complexas com os outros seres organizados e com as condições físicas da vida. Os descendentes terão, por si mesmo, em virtude deste fato, maior probabilidade em persistir; porque, dos indivíduos de uma espécie nascidos periodicamente, um pequeno número pode sobreviver. Dei a este princípio, em virtude do qual uma variação, por insignificante que seja, se conserva e se perpetua, se for útil, o nome de seleção natural, para indicar as relações desta seleção com a que o homem pode operar. Mas a expressão que M. Herbert Spencer emprega: «a persistência do mais apto», é mais exata e algumas vezes mais cômoda.

Já no século XIX essa teoria descambou para o mais profundo horror. O citado Herbert Spencer foi um dos principais propagadores do chamado Darwinismo Social, que consistiu em uma tentativa de aplicar a lógica da "persistência do mais apto" às sociedades humanas. Esse movimento se iniciou em 1870 e ganhou força nas décadas seguintes... O resultado todos nós já conhecemos: racismo, fascismo e eugenia. Pode-se dizer, com facilidade, que o holocausto resultou, em alguma medida, desse tipo de lógica instalada no interior da ciência. Não só na Alemanha, mas em diversos outros países, prosperou um discurso racista, eugenista, machista e homofóbico que tentava utlizar a ciência para justificar a exclusão social e a seleção de indivíduos em detrimento de outros.


No campo da psicologia, o palentólogo americano Stephen Jay Gould elaborou um minucioso trabalho que demonstra como práticas que se anunciam e se pretendem como neutras, como é o caso da testagem psicológica e dos testes de inteligência, possuem um passado e uma tradição absolutamente controversos. O que Gould demonstra, no livro "A Falsa Medida do Homem", é como a psicometria e os testes psicológicos são herdeiros da tradição da frenologia, da antropometria e da craniologia, e como os principais autores dessa corrente de pensamento são influenciados por teorias do Darwinismo Social. Disso resulta que as primeiras aplicações dos testes de inteligência tinham por objetivo justificar a exclusão social e o preconceito racial e de gênero.


Não se trata de uma crítica vazia e desprovida de fundamentos. A verdade é que não há ciência neutra, mesmo quando ela adota um tom tecnicista e cientificista. Os termos são muitas vezes enganosos, e a estatística esconde a verdadeira intenção da prática. No campo da concretude da existência, o fato é que os testes de inteligência foram utilizados como instrumentos para dizer que negros, mulheres, gays, deficientes e imigrantes seriam "menos aptos" que os homens brancos de classe média ou burgueses.


Desdobrando essa questão, cabe refletir sobre o modo como o pensamento de Darwin vem sendo utilizado no século XXI. É uma grande ilusão achar que afastando-se o preconceito e o Darwinismo Social o problema está resolvido. Muito pelo contrário, o problema permanece instaurado no campo da ciência e do senso comum, e continua inquestionado, ainda que tenha sido apontado por Kropotkin.


As ideias da luta pela existência, da sobrevivência do mais apto e da seleção natural acabam por naturalizar uma perspectiva neoliberal da realidade. Byung Chul Han, filósofo sul-coreano instalado em Berlim (Alemanha), aponta com exímia maestria esse aspecto de nosso tempo, em seu livro "Psicopolítica". Para ele, somos tomados, a todo momento, por discursos e práticas neoliberais que modulam nossa existência cotidiana e nos transformam em meras máquinas produtivas a serviço do sistema. Disso resulta um profundo adoecimento que é interpretado, erroneamente, como uma doença ou uma característica do indivíduo. Na visão de Darwin ou de Spencer, os indivíduos que não se adequam ao ambiente neoliberal moderno podem ser simplesmente "selecionados negativamente". Isso é simplesmente um bom eufemismo para morte e descarte. Ou, nas palavras de Mbembe: "Necropolítica".


O problema da seleção natural permanece porque não costumamos questionar seus fundamentos. E é exatamente isso o que Kropotkin faz em seu ensaio "Apoio Mútuo: Um Fator Iluminado de Evolução".

Enquanto Darwin e Spencer enfatizam a competição e a sobrevivência individual, Piotr Kropotkin se debruça na ação coletiva e na colaboração entre indivíduos. Para o anarquista russo, a sobrevivência de diversas espécies seria simplesmente impossível sem a ação conjunta e o chamado "apoio mútuo".


Kropotkin inicia seu texto contrapondo a chamada "luta pela sobrevivência" com o "apoio mútuo". Para isso, ele utiliza como exemplos a ação dos invertebrados, das abelhas, das formigas e das aves. Para ele, nenhuma dessas espécies poderia sobreviver como um conjunto de "indivíduos isolados". Desse modo, a noção de uma "luta de um contra todos" é abandonada em detrimento de um ideal de coletivismo.


O que se segue é a tentativa de retraçar a história da própria humanidade a partir da ação coletiva e do apoio mútuo. Na visão de Kropotkin, seria impossível para os bárbaros operar a caça ou a coleta através de ações individuais. Para caçar uma presa era necessária uma ação conjunta e coordenada, e na coleta era preciso dividir as tarefas e cuidar do grupo. Essa história se desdobra até os dias atuais, de modo que o autor aponta como, em cada período histórico, a sobrevivência da humanidade só foi possível através de ações coletivas e de apoio mútuo, desprovidas de um caráter de interesse ou competição.


A competição e a sobrevivência dos mais aptos se colocam, na visão dele, como entraves à própria sobrevivência da espécie. E a humanidade só sobrevive porque se comporta como algo além de um "punhado de indivíduos". O risco do neoliberalismo, no entanto, é o de ofuscar a possibilidade de uma ação coletiva e de um ideal comunitário, já que estamos sempre ocupados com nosso próprio umbigo e com nossa própria sobrevivência individual.


Ao final do ensaio, Kropotkin aponta:


Provavelmente alguém vai dizer que, embora possa representar um dos fatores da evolução, a ajuda mútua só explica um único aspecto das relações humanas e que, ao lado dessa corrente, por mais poderosa que seja, há e sempre haverá a outra, a da autoafirmação do indivíduo; essa afirmação não aparece só em seus esforços para obter superioridade pessoal ou de casta, econômica, política e espiritual, como também em sua função muito mais importante, ainda que menos evidente, de avançar através dos laços, que sempre tendem a se cristalizar, que a tribo, a comunidade aldeã, a cidade e o Estado lhe impõem. Em outras palavras, a autoafirmação do eu do indivíduo é considerada um elemento do progresso. É claro que nenhum estudo da evolução seria completo sem uma análise dessas duas correntes dominantes. Mas a autoafirmação do indivíduo ou de grupos de indivíduos, suas lutas por superioridade e os conflitos daí resultantes já foram analisados, descritos e glorificados desde tempos imemoriais. Na verdade, até nossos dias, só essa corrente recebeu a atenção do poeta épico, do analista, do historiador e do sociólogo. A História, tal como foi escrita até agora, é quase inteiramente uma descrição dos modos e meios pelos quais a teocracia, o poder militar, a autocracia e, mais tarde, o domínio das classes mais ricas têm sido promovidos, estabelecidos e mantidos. As lutas entre essas forças compõem, na verdade, a substância da História. Podemos então tomar como ponto pacífico o conhecimento do fator indivíduo na História humana – mesmo que haja muito espaço para um novo estudo do assunto segundo as linhas acima mencionadas. Por outro lado, o fator da ajuda mútua foi totalmente ignorado até agora, ou simplesmente negado, ou mesmo transformado em objeto de escárnio de escritores das gerações presentes e passadas. Por isso é necessário mostrar, antes de mais nada, a importância do papel que esse fator desempenha na evolução, tanto no mundo animal quanto nas sociedades humanas. Só depois que isso tiver sido plenamente reconhecido será possível proceder a uma comparação entre os dois fatores.

Toda essa discussão parece muito distante da fenomenologia-existencial, mas isso não é verdade. A fenomenologia se coloca como uma tradição de pensamento crítico, que tem por objetivo dar um passo atrás e questionar os fundamentos de todo e qualquer fenômeno. A filosofia existencial, por outro lado, tem suas bases em Kierkegaard, que é um autor que traz algumas colocações importantes sobre a vida comunitária.


É precisamente nas "Obras do Amor" que Kierkegaard traz suas maiores contribuições a esse respeito. Nesse livro, ele analisa detidamente o mandamento bíblico "tu deves amar". Ao longo do texto, a ênfase recai em cada um dos elementos constitutivos do mandamento: em primeiro lugar o "tu", questionando em que consiste o tu; em segundo lugar, questionando o "deves" e refletindo sobre o fundamento de tal dever; em terceiro lugar, pensando de que se trata o "amar", refletindo então sobre o fundamento e a natureza do amor.

Trata-se de um texto recomendado a nosso tempo, mesmo para os descrentes e ateus. Pois embora Kierkegaard adote uma terminologia religiosa, ele está falando da missão e do dever de uma vida comunitária, e da construção de um ideal de apoio mútuo no exercício do amor, entendido como ágape.


Um dos trechos da obra diz o seguinte:


O mandamento prescreve, portanto: "Tu deves amar o teu próximo como a ti mesmo", mas quando o mandamento é compreendido corretamente ele também diz o inversos: "Tu deves amar a ti mesmo da maneira certa". Se alguém não quer aprender do Cristianismo a amar-se a si mesmo da maneira certa, não poderá, de jeito nenhum, amar o próximo; ele pode assim, talvez, como se diz, ligar-se a um outro ou a muitos outros homens "para a vida ou para a morte", mas isso absolutamente não significa amar o próximo. Amar-se a si mesmo da maneira certa e amar o próximo se equivalem totalmente, e no fundo são a mesma coisa. Quando o "como a ti mesmo" da lei te libertou do amor de si, que o Cristianismo, coisa bem triste, tem de pressupor que existe em cada homem, é então que aprendeste a te amar a ti mesmo. A lei é, portanto: Tu deves amar a ti mesmo da maneira como tu amas ao próximo, quando tu o amas como a ti mesmo.

Do alto de sua sabedoria irônica, Kierkegaard realiza o mais difícil: une individualismo e coletivismo em um único ato. Amar ao outro como a ti mesmo é o mandamento. E, como tal, a sobrevivência individual passa pela sobrevivência coletiva. Não se trata de competição ou sobrevivência do mais apto, mas de amor e apoio mútuo. Assim, Kierkegaard é para mim a solução final, a síntese entre Darwin e Kropotkin, na construção de um ideal de amor comunitário e de uma ciência amorosa.


E você, o que pensa sobre isso? Como tem lidado com as expressões do neoliberalismo em seu cotidiano e em sua clínica? Já conhecia as discussões de Darwin, Kropotkin, Han e Kierkegaard? Comente aí em baixo!




 
 
 

1 comentário


Paulo Braga
Paulo Braga
18 de dez. de 2022

Mas Darwin teria esquecido a organização das abelhas e outras instâncias de coletivismo totalitário entre animais? Ele enfocou o processo biológico de gradual seleção por meio de um processo de competição não propriamente entre indivíduos, mas deles frente a seu meio ambiente. A observação do príncipe segue a linha idealista de seu pensamento: neste caso, mistura aspectos que não têm muita afinidade.

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