A Biblioterapia de Quadrinhos como Recurso Terapêutico
- Victor Portavales Silva
- 26 de out. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2022

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A biblioterapia consiste na indicação de leituras como recurso terapêutico, de maneira complementar às intervenções médicas e/ou psicológicas. Trata-se de uma prática ainda sem regulamentação no Brasil. Não há sequer cursos de ensino superior, em nível de graduação, voltados à biblioterapia, ao contrário do que acontece com a arteterapia e a musicoterapia, por exemplo. Sendo assim, qualquer profissional pode utilizar-se dessa estratégia. Embora não seja uma prática regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, pode-se argumentar que a indicação de leituras faz parte da lida humana, e não possui efeitos iatrogênicos conhecidos. No popular, “mal não faz”. Dessa maneira, pode ser uma indicação interessante em situações específicas.
Toda e qualquer indicação artística ou cultural, no curso do tratamento, consiste em uma intervenção não-diretiva. A não-diretividade é uma das características e princípios da maior parte das vertentes em Psicologia existencial. Embora pouca tematizada, a influência de Kierkegaard parece notória na maior parte dessas vertentes, ainda que de maneira indireta. Um importante fundamento para a não-diretividade se encontra exposto na obra Ponto de Vista Explicativo de Minha Obra como Escritor.
Isso porque, no conjunto de sua obra, Kierkegaard utilizou diversos pseudônimos para apresentar pontos de vista distintos e complementares, visando um estratégia única: dialogar com o leitor a partir de onde ele se encontra. Para isso, precisou criar uma rede dialógica entre suas diferentes vozes, adotando diferentes perspectivas.
Kierkegaard também nos oferece uma contribuição importante no discurso Adquirir a sua Alma na Paciência, em que ele descreve a paciência como uma atividade, e não como uma virtude. Para isso, utiliza alguns exemplos, como o do agricultor, que ara a terra, planta e rega, mas precisa confiar a espera, pois o resultado de seu plantio também depende das intempéries e pragas que podem assolar a plantação. Outro exemplo é o do pescador, que lança seu anzol rumo à profundidade das águas, mas depende da mordida do peixe, assim como de seu próprio movimento, que tem um tempo certo, e falha tanto na antecipação quanto na demora.
A biblioterapia pode ser uma prática pautada na paciência e na não-diretividade, pois lança uma aposta ao devolver ao leitor a responsabilidade de interpretar o que lhe foi indicado. Isso é algo importante a ser lembrado, pois nunca sabemos no que irá resultar uma indicação literária. Podemos ter em mente um insight importante, mas pode ser que o leitor não chegue à mesma conclusão. Pode ser que interprete de maneira distinta. Seja como for, exercita sua autonomia e responsabilidade ao construir sua própria interpretação.
Roland Barthes e Foucault são autores que trazem contribuições interessantes para pensar essa questão, na discussão sobre a Morte do Autor. Segundo eles, um texto deixa de pertencer ao escritor assim que ele é publicado, tornando-se um objeto independente. Não cabe ao autor controlar as repercussões e interpretações de seu texto. Ainda que ele tente ser objetivo, podem haver lacunas a serem preenchidas pela subjetividade. Dessa forma, o autor, assim como quem indica uma leitura, precisa ser alguém que confia, que não subestima a inteligência do leitor.
O uso de quadrinhos, em específico, é interessante sobretudo no contato com o público jovem, mas é extensível a qualquer idade. Há quadrinhos com temáticas absolutamente adultas. Vemos isso, por exemplo, nas discussões trazidas pelo Alexandre Link (@qnsarjeta). Por se tratar de uma leitura mais ágil e curta, torna-se adequada à recomendação entre sessões semanais em psicoterapia, por exemplo. Essas características práticas fazem dos quadrinhos um importante recurso terapêutico. Além disso, diferenciam-se dos romances literários pela presença de elementos estéticos que ajudam o leitor a experienciar a narrativa, como traçado, diagramação e uso de cores, que ajudam a compor uma atmosfera específica. Abaixo, ofereço uma pequena lista de quadrinhos e mangás que costumo recomendar em diferentes situações:

Título: O Melhor que Podíamos Fazer
Autora: Thi Bui
Temas: Calamidade social, imigração, superação e convívio familiar.
Sinopse: Esta é uma história de busca por um futuro melhor e de saudosismo pelo passado. Explorando a angústia da imigração e os efeitos duradouros que o deslocamento tem sobre uma criança, Bui documenta a difícil fuga de sua família após a queda do Vietnã do Sul, na década de 1970, e as dificuldades que enfrentaram para construir uma nova realidade. O melhor que podíamos fazer traz à vida a jornada de Thi Bui em busca de compreensão e fornece inspiração a todos aqueles que anseiam por um futuro melhor, enquanto recordam o passado de privações.

Título: A Arte de Voar
Autor: Altarriba
Temas: Suicídio, luto, convívio familiar e envelhecimento.
Sinopse: Ambientada no período da Guerra Civil Espanhola, a HQ A arte de voar, de Altarriba e Kim, funde aventura, drama e humor, traçando um panorama vivo da Europa no turbulento século 20. O fio condutor é a trajetória de Antonio Altarriba Lope, pai de um dos autores do livro, um jovem camponês que assiste à ascensão do fascismo do general Franco em meio à pobreza e à instabilidade política da época e se engaja na Guerra Civil, para combater ao lado dos anarquistas. O conflito o leva a percorrer trincheiras país afora descobrindo a solidariedade, o heroísmo e, por fim, a derrota. Junto com milhares de outros espanhóis, Altarriba é forçado a se exilar na França, onde se engaja na resistência ao nazismo e, depois, se envolve com a máfia de Marselha.

Título: A Diferença Invisível
Autoras: Carolline e Dachez
Temas: Autismo e desenvolvimento humano.
Sinopse: Marguerite tem 27 anos, e aparentemente nada a diferencia das outras pessoas. É bonita, vivaz e inteligente. Trabalha numa grande empresa e mora com o namorado. No entanto, ela é diferente. Marguerite se sente deslocada e luta todos os dias para manter as aparências. Sua rotina é sempre a mesma, e mudanças de hábito não são bem-vindas. Seu ambiente precisa ser um casulo. Ela se sente agredida pelos ruídos e pelo falatório incessante dos colegas. Cansada dessa situação, ela sai em busca de si mesma e descobre que tem um Transtorno do Espectro Autista – a síndrome de Asperger. Sua vida então se altera profundamente.

Título: Crisálida
Autor: Vinicius Velo
Temas: Racismo, preconceito, adoção e convívio familiar.
Sinopse: Crisálida conta o processo de reaproximação de uma família separada por um conflito ideológico e de visões de mundo diferentes, bem parecido com o que acontece em muitas famílias no Brasil e no Mundo. A história acompanha Cássio, um homem idoso, viúvo, branco e conservador, que tem as convicções e visão de mundo colocadas à prova quando passa a cuidar de sua neta Ana, uma criança curiosa, alegre, comunicativa e preta, para que seu filho Pedro, com quem não conversa há quase dez anos, possa se tratar de um câncer agressivo.

Título: O Homem sem Talento
Autor: Yoshiharu Tsuge
Temas: Desemprego, produtividade e sentido de vida.
Sinopse: Originalmente publicado em 1985 no Japão, O Homem Sem Talento é um trabalho icônico do gênero mangá watakushi (“quadrinhos do eu”), como são conhecidos os quadrinhos autobiográficos japoneses, cujo pioneiro é justamente o próprio Yoshiharu Tsuge. O protagonista, alter-ego do desenhista, é um autor de mangá que se recusa a comprometer seu trabalho e ceder às pressões da indústria editorial. Diante das vicissitudes da existência, ele parece determinado a tornar sua vida uma estranha ode ao fracasso, vendendo pedras retiradas de um rio perto de sua casa. Pedras que ninguém parece ter interesse em comprar. De maneira lenta, mas persistente, o “homem sem talento” se coloca à parte de uma sociedade que não lhe interessa mais, enquanto sua esposa insiste em vão para que ele encontre uma maneira de dar uma vida digna à sua família. Ao longo das páginas, Tsuge transforma essa história de fracasso em um poema assustador e desesperado, mas com um toque de humor e uma irônica redenção.

Título: Vida nas Sombras
Autor: Hiromi Goto
Tema: Envelhecimento, finitude e morte.
Sinopse: Kumiko, uma viúva de 76 anos, é colocada em uma casa de repouso por suas filhas, mas esse não é o lugar que quer estar. Ela foge e encontra um pequeno e aconchegante apartamento, mantendo a localização em segredo enquanto se comunica virtualmente com sua filha mais velha. Agora Kumiko se diverte com os pequenos prazeres do dia a dia: decorar o quarto como quer, comer o que der na telha e nadar na piscina comunitária. Porém, algo a seguiu desde sua antiga residência – a sombra da Morte. A divertida vida de Kumiko começa a ruir quando essa sombra se aproxima para recolhê-la. Dona de pensamentos rápidos e grande senso de humor, a viúva, com a ajuda de novos e velhos amigos, está preparada para lutar por sua vida. Mas por quanto tempo uma idosa pode frustrar o destino?
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