Humanismo e Fenomenologia: Convergências e Divergências na Psicologia
- Victor Portavales Silva
- 16 de ago. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 29 de ago. de 2025

E aí, pessoal! Sejam muito bem-vindos de volta ao blog! Hoje, a gente vai mergulhar em um tema que causa MUITA confusão, tanto para quem tá começando na Psicologia quanto para os profissionais mais experientes. Vocês já se pegaram pensando: "Psicologia Humanista e Fenomenológico-Existencial são a mesma coisa, certo? Só muda o nome, né?". Se sim, preparem-se, porque nossa revisão do artigo "Encontros e Desencontros nas Perspectivas Existenciais em Psicologia" de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo e Cristine Monteiro Mattar vai desmistificar isso de um jeito que vocês nunca mais vão confundir!
A gente vai explorar as origens, as influências e, o mais importante, as diferenças radicais entre essas duas perspectivas que, embora ambas rompam com o determinismo comportamental e psicodinâmico, guardam singularidades cruciais que precisam ser lembradas para que a Psicologia possa avançar com mais rigor. Bora lá desvendar esse mistério?
1. A Psicologia Humanista: A "Terceira Força" que Mudou Tudo (ou quase!)
Pra começar, vamos voltar um pouquinho no tempo, lá pra 1969, quando o psicólogo americano Rollo May cunhou o termo Psicologia Existencial-Humanista. Na América do Norte, essa se tornou a forma mais popular de se referir ao que chamavam de "terceira força" em Psicologia. Imagina só: de um lado, a psicanálise, do outro, o behaviorismo, e no meio, surge essa nova proposta!
Maslow, Murphy e Rogers, em entrevistas publicadas em 1971, foram figuras chave nessa definição. Abraham Maslow, em 1968, se identificava como um "antidoutrinário" e propôs essa "terceira força" para abrigar todas as perspectivas que não se encaixavam nas duas hegemônicas da época (psicanálise e behaviorismo). Em 1961, nasceu a Revista de Psicologia Humanista, em 1963, a Associação Americana de Psicologia Humanista, e em 1964, o movimento se consolidou com a adesão de gigantes como Carl Rogers, cujas obras e a "Psicologia Centrada na Pessoa" são referências até hoje.
Essa época, nos EUA, era de otimismo pós-guerra, movimentos como o hippie, contracultura, potencial humano, e até experimentações com LSD e interesse por filosofias orientais. Tudo isso contribuiu para um clima de contestação à tecnocracia, buscando uma vida mais orgânica, de paz e amor, questionando a autoridade dos psicólogos e psicanalistas em nome da "libertação criativa do homem", que saberia, naturalmente, o que seria melhor para seu crescimento.
A Psicologia Humanista, ou "terceira força", reuniu diversas abordagens, como a Abordagem Centrada na Pessoa de Rogers, a Gestalt-terapia de Fritz e Laura Perls, o Psicodrama de Jacob L. Moreno, as psicoterapias corporais de Alexander Lowen e a Psicologia Existencial de Rollo May. Elas se uniram pela crítica às duas primeiras forças e pelo desenvolvimento de temas em comum como: self, saúde psicológica, bem-estar, potencial humano de crescimento, autorrealização, criatividade, amor, sentimentos, identidade, vontade, coragem, liberdade, responsabilidade, valores superiores, transcendência do ego, significados, intencionalidade e experiência subjetiva. Filósofos como Thoreau e Emerson, que defendiam um estilo de vida minimalista e o transcendentalismo, também influenciaram essa perspectiva.
Mas aqui vem a pegadinha, galera! Embora a Psicologia Humanista tenha sido um GRANDE avanço para pensar uma Psicologia diferente das bases científicas ou teóricas tradicionais, ela ainda, de certa forma, mantinha a ideia de um "potencial de crescimento" e uma "interioridade psíquica". É isso que, para os autores do artigo, significa que ela não combateu completamente o determinismo que pretendia superar. Ela trouxe dignidade ao ser humano, sim, mas ainda o via por meio de uma determinação moderna: a de que somos pessoas que devem se autorrealizar. Parece que, para essa vertente, a saúde psíquica pode ser conquistada, o que mantém alguns pressupostos metafísicos.
2. A Psicologia Fenomenológico-Existencial: Mergulhando Fundo na Existência!
Agora, vamos mudar de cenário e viajar para a Europa, onde a Psicologia Fenomenológico-Existencial ganha força. Essa perspectiva surge da influência de pensadores como:
• Edmund Husserl: O pai da Fenomenologia! Ele lutava contra o logicismo e o psicologismo, criticando a Psicologia tradicional por focar na alma e a Psicologia moderna por substituir a alma por conceitos como self ou personalidade, mas ainda desconsiderando a natureza intencional dos fenômenos psíquicos. Para Husserl, a consciência não é um compartimento fechado; ela é sempre "consciência DE algo", uma explosão que nos lança para o mundo, numa relação originária consciência-mundo. Ou seja, ideias de tendências inatas ou de um self autêntico não se encaixam aqui.
• Martin Heidegger: O discípulo que foi além do mestre! Heidegger não só incorporou a hermenêutica, mas deu um passo atrás de Husserl, mostrando que é a própria existência que é intencional. Ele abandona termos como "pessoa", "sujeito", "psiquismo" e "interioridade", preferindo o termo Dasein (Ser-aí). Pra ele, o Dasein não é um objeto encapsulado ou algo passível de objetivação, como comportamento ou inconsciente. É um "ser no mundo", uma abertura compreensiva e disposta, sempre em relação com o Ser.
◦ Ponto Chave: Heidegger fez críticas FORTES ao humanismo, especialmente em sua carta "Sobre o humanismo" (1947), direcionada a Sartre. Ele mostra a incompatibilidade total entre seu pensamento e o humanismo moderno ou a Psicologia Humanista. Para Heidegger, todo humanismo recai em uma metafísica, e ele buscava deslocar-se totalmente dessa proposta. A "ek-sistência" (estar na clareira do Ser) para Heidegger não tem nada a ver com a ideia de um self humanista ou com a noção de que a existência precede a essência da forma como Sartre a entendia, que é muito presente na Psicologia Humanista. Ele queria desobscurecer o que é próprio do humano: sua relação com o Ser.
• Soren Kierkegaard: Considerado um pioneiro em focar no caráter de indeterminação da existência, na ausência de uma essência subjetiva definida a priori. Ele defendia que a existência é pura tensão, vulnerável e sempre em devir. Para Kierkegaard, o eu é desespero, uma síntese de finito e infinito, necessário e possível, sempre em jogo, sem jamais alcançar uma síntese. O eu se constitui nesse caráter de nada, indeterminação e desamparo, sem nenhuma substancialidade ou tendência inata direcionada ao crescimento. Ou seja, não dá pra misturar a filosofia de Kierkegaard com a Psicologia Humanista de Rollo May por ignorar essas diferenças fundamentais.
• Jean-Paul Sartre: Ele trabalha as mesmas temáticas de Kierkegaard, mas com um toque fenomenológico e maior ênfase na angústia como a situação em que o homem se vê diante de sua liberdade e responsabilidade. A frase icônica "estou condenado a ser livre" expressa bem isso: não há limites para a liberdade além da própria liberdade. Somos responsáveis por aquilo que fazemos de nós mesmos.
Essa perspectiva fenomenológico-existencial teve mais relevância na Europa e ganhou mais adesão de psiquiatras, como Karl Jaspers, Binswanger, Minkowski, Boss, e até Laing e Cooper, que precederam o movimento antimanicomial.
O grande diferencial aqui, gente, é o abandono total da noção de um "eu encapsulado". A existência é indeterminada, pode assumir diversas possibilidades, é caracterizada por desespero, angústia e liberdade, e sempre se encontra em um sentido fático e lançado. Ela se propõe a ser uma Psicologia que não parte de uma subjetividade determinada ou substancializada, e busca escapar da ideia de um psiquismo dicotomizado (ser/aparência, interioridade/exterioridade, normalidade/anormalidade). Se liga: não existe neutralidade na relação do Dasein com o Ser; as disposições afetivas (tonalidades afetivas originárias) são o modo como o existir humano acontece desde sempre, a partir do qual é possível pensar em um sujeito e suas emoções, e não um atributo de um sujeito emocional.
A meta? Escapar de qualquer aproximação com as Psicologias modernas (científicas, psicodinâmicas ou humanistas) que se desenvolveram a partir de pressupostos de subjetividade, como a verdade como representação e a dicotomia sujeito-objeto como estrutura originária da realidade.
3. Encontros e Desencontros: Por Que Tanta Confusão?
Então, por que essa confusão toda, hein? O artigo sugere que essa mistura de fronteiras, essa crença de que as denominações são sinônimas e tratam das mesmas questões, pode ter sido promovida pela proximidade entre movimentos filosóficos europeus e psicólogos norte-americanos, como Rollo May. May, que estudou na Europa, foi influenciado por filósofos como Kierkegaard e Tillich e introduziu obras clássicas de fenomenólogos e Daseinsanalistas na América.
A proliferação de revistas e livros humanistas repletos de jargões heideggerianos, sartreanos e merleau-pontyanos, somada à chegada das primeiras traduções desses filósofos na América do Norte na década de 1960, criou um "solo propício" para essa fusão. Rollo May, inclusive, criou o nome composto "existencial-humanístico".
Mas a verdade é que as diferenças são RADICAIS!
Sá (2007) já alertava para o equívoco, afirmando que a aproximação entre Fenomenologia Existencial e Humanismo é muito mais "negativa" – ou seja, contra um opositor comum (perspectivas deterministas e causalistas, como as comportamentais e psicodinâmicas) – do que por uma identidade profunda de perspectivas. Ambas romperam com qualquer determinismo, mas isso não as torna idênticas.
Onde o bicho pega de verdade?
• A ideia de interioridade e potencialidade: A Psicologia Humanista, ao buscar a dignidade do homem, acaba por "tomá-lo por meio de outra determinação moderna, como pessoa que deve autorrealizar-se", mantendo a ideia de uma interioridade mais autêntica e um potencial a ser atualizado. A Psicologia Fenomenológico-Existencial, por outro lado, abandona radicalmente essa noção de interioridade psíquica e potencialidade. A existência é pura abertura, sem essência ou tendências a priori, enfatizando possibilidades em vez de potencialidades já presentes.
• A crítica de Heidegger ao Humanismo: Como vimos, Heidegger foi enfático: "Todo humanismo ou se funda numa metafísica ou se converte a si mesmo em fundamento de uma metafísica". Ele queria se deslocar totalmente de propostas metafísicas. Para uma Psicologia que dialoga com a ontologia heideggeriana e os filósofos da existência (Kierkegaard e Sartre), é crucial abandonar qualquer ideia de interioridade e potencialidade.
• O "eu": A Psicologia Humanista ainda opera com a ideia de um "eu" positivo, que se autorrealiza. Já a Fenomenológico-Existencial defende a "negatividade" do eu, seu caráter de indeterminação, angústia e desespero, uma relação que está sempre em devir, sem substancialidade ou tendência inata ao crescimento.
Ainda hoje, encontramos essa fusão em títulos como "Clínica Humanista-Fenomenológica". Mas, se a gente for rigoroso, não dá pra falar em clínica fenomenológica se for a fenomenologia transcendental de Husserl (que não é empírica), nem misturar com Heidegger, que destruiu a ética humanista, ou Kierkegaard, que não concebia tendências inatas ao crescimento.
4. Considerações Finais: Desvendando o Cenário!
Então, meus amigos, o que a gente aprendeu aqui é que, embora a Psicologia Humanista (a terceira força, que buscou um respiro frente à psicanálise e ao behaviorismo) tenha sido super importante para trazer dignidade ao homem e temas cruciais, ela ainda mantém pressupostos metafísicos e a ideia de uma interioridade psíquica e potencial a ser alcançado.
Já a Psicologia Fenomenológico-Existencial, com sua inspiração nos gigantes da filosofia, inaugura um modo de pensar TOTALMENTE adverso a qualquer Psicologia que aponte para uma positividade do eu, defendendo, ao contrário, sua negatividade e indeterminação. Ela busca uma Psicologia que não se baseie em uma subjetividade determinada ou em dicotomias.
Ainda que Maslow (1968) tenha definido a "terceira força" como algo que critica as duas primeiras e busca o desenvolvimento do potencial humano, a Psicologia Fenomenológico-Existencial descarta completamente a noção de potencialidade humana. Isso porque a existência é sempre uma abertura, ausente de essência ou tendências a priori, focando em possibilidades.
A conclusão do artigo é clara: existe um "radical desencontro" entre a Psicologia Fenomenológico-Existencial e a Existencial-Humanista, que impede DEFINITIVAMENTE que ambas sejam consideradas a mesma coisa com diferentes denominações.
É isso, pessoal! Espero que essa discussão tenha clareado as ideias e ajudado vocês a verem as nuances e as diferenças ESSENCIAIS entre essas duas abordagens. Compreender isso é fundamental para o avanço da Psicologia com mais rigor e profundidade. Se vocês gostaram, deixem o like, compartilhem com a galera da Psicologia e me contem nos comentários: qual a sua perspectiva sobre esse tema?
Um livro interessante que trata dessa temática é o "Os movimentos humanista-existencial e fenomenológico-existencial na Psicologia", do Prof. Marcus Belmino. Você pode adquirir o livro aqui.
Aproveitem também para conhecer nosso Curso de Introdução à Psicologia Fenomenológico-Existencial, pois essa discussão partiu de uma de nossas aulas do curso! Até a próxima!
Referências:
Feijoo, A. M. L. C., & Mattar, C. M. (2016). Encontros e desencontros nas perspectivas existenciais em psicologia. Psicologia em Revista, 22(2), 258-274.
Sá, R. N. (2007). As influências da fenomenologia e do existencialismo na Psicologia. In A. M. Jaco-Vilela, A. A. L. Ferreira & F. T. Portugal. História da Psicologia: rumos e percursos. (pp. 319-338). Rio de Janeiro: Nau.




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